sábado, 9 de julho de 2016

Tempo lógico e tempo psicológico no xadrez


Zenão de Eléia

Filósofo Pré-Socrático do século VI ac., 
apresentava paradoxos que provavam que o movimento não existe.

Pensar o impensável, viver a multiplicidade, no tempo, que não pode ser explicado racionalmente!

Os argumentos dialéticos de Zenão mostravam que para realizarmos qualquer movimento entraríamos em contradição.

Um dos exemplos que justificariam a irracionalidade e irrealidade do movimento era que o veloz Aquiles jamais alcaçaria uma tartaruga, porque para alcançá-la seria necessário completar a metade do percurso, e depois a metade da metade, e, assim, sucessivamente, até jamais concluir o movimento.

Explicar a realidade, a multiplicidade e o tempo, são temas que norteiam a filosofia em toda sua historicidade.

No xadrez, o tempo lógico é aquele constante sequencial que organiza as jogadas em relógios. O tempo lógico é um e o mesmo, e nele temos o acontecer do jogo de xadrez segundo regras estáticas que devem ser seguidas.

Partidas que duravam dias e eram interrompidas, antes da era dos supercomputadores, Matchs dos campeonatos mundiais de xadrez eram decididos por equipes que permaneciam madrugadas pensando linhas de jogo...

Fantástico foi, sob este aspecto, alguns dos Matchs entre Karpov e Kasparov.

Nos dias atuais a lógica reinante do xadrez é cada vez mais veloz, até porque os desenvolvimentos tecnológicos impedem partidas jogadas e paralisadas por dias. 

O xadrez postal, certamente, hoje enfrenta dificuldades, pois os membros que "jogam limpo" são cada vez mais escassos.

O pensamento posto no jogo de xadrez e o tempo como elemento determinante, o uso do tempo é tema estratégico tão importante quanto estudar as fases do jogo.

Quando estava jogando torneios de xadrez convencional, uma regra que eu sempre utilizava, enquanto administração psicológica do tempo, era contar lances e pensá-los segundo um tempo definido, por exemplo: a partir do décimo lance, não jogar nenhum lance sem ser revisado, e com o uso mínimo de 4 minutos por lance.

Este uso psicológico do tempo me ajudou muito, pois em revisando minhas derrotas, percebia que por vezes me "empolgava" no jogo e fazia lances muito rapidamente apenas para uma satisfação psicológica minha ou mesmo por pura exibição ao adversário, no sentido de pressioná-lo, o que geralmente se mostrava uma estratégia infeliz e fracassada.

No xadrez relâmpago, ao contrário, jogava contra jogadores mais velozes que eu, e precisava manter uma qualidade no jogo, além de não ficar atrás no tempo.

O equilíbrio entre a qualidade do jogo e uma manutenção saudável do tempo, para não permanecer em desvantagem e possivelmente não ter tempo para os momentos decisivos da partida, esta é uma regra de ouro no xadrez.

Eu conheço, certamente vocês devem conhecer também, pessoas que jogam muito bem xadrez mas sempre perdem por tempo!

Isso é terrível!

É necessário levar a planificação do tempo, em âmbito psicológico, como elemento central da estratégia enxadrística.

A plasticidade do tempo psicológico deve ser entendida como uma arte de manobrar e enlaçar as necessidades temporais do jogo com os lances e a qualidade do jogo posta sob o tabuleiro.

A queda da seta é o fim do jogo. A luta contra o relógio está posta a nós tanto quanto o adversário que pretende nos dar xeque-mate!

Se o tempo lógico é um enigma posto sob os ponteiros do relógio de xadrez, por outro lado, o tempo psicológico deve ser nosso grande aliado.



Tempo, tempo, prodígio....

imposição

arbitrariedade a ser superada

sua psicologia é nossa

sua lógica é absoluta

e entre lances e pensamentos

entre a vitória e a derrota

 ou na paz de um passivo empate

ao que se move, permanece

 enquanto os lances passam

enxadristas brincam de vislumbrar um ínfimo do tempo

mas o tempo, ele mesmo, é e não é...

tal qual Zenão propõe quanto ao movimento?


Introdução à Filosofia - o existencialismo



Contra os temas clássicos da filosofia, sobretudo das metafísicas essencialistas, o existencialismo propôs que pensássemos sobre a condição humana no mundo, a partir de questões como: angústia, cuidado, trágico, desespero, etc.

Dizem os existencialistas que a filosofia, em geral, não abarca o mundo interior do indivíduo, bem como suas vivências imediatas.




Reivindicando a abertura a pensar temas polêmicos como a angústia, o suicídio, entre outros, o existencialismo defende que estejamos abertos a tudo. Nossa experiência sendo frágil e aparentemente relativa, a questão da criação de sentidos para nossa existência aparece como fundamental.

Em geral, o pensamento existencialista considera que não há uma essência absoluta, fundamente, a-histórica, que precederia a existência.  É pelos percalços da liberdade que construímos os significados do mundo.

Uma ideia fundamental é que não basta permanecer no plano dos conceitos e do abstrato, sendo necessário, pois, que encontremos as coisas mesmas, isto é, as coisas existentes.

Na filosofia contemporânea, o existencialismo se destacou a partir de diversas filosofias, sem que houvesse, no entanto, a unidade de uma doutrina única. Então, é importante assinalar que o existencialismo é mais uma postura filosófica que uma doutrina. Por exemplo, Sartre desenvolveu um existencialismo ateu, enquanto que Gabriel Marcel desenvolveu um existencialismo cristão, etc.

Gabriel Marcel (1877-1973) representa no existencialismo o questionamento sobre o mistério da existência, enfatizando a importância da experiência subjetiva, da relação "eu-tu" como contribuindo para nosso engajamento com o dramático da existência. 
Diante do mistério da existência, Deus é tratado como algo indemonstrável e presente a partir da própria experiência da finitude humana, a qual pode alcançar a Deus.


Jean Paul Sartre (1905-1980), considerado o maior expoente do existencialismo no pós segunda guerra, enfatizava que a liberdade é total. Absolutamente livres, os seres humanos fazem, e em fazendo, fazem a vida social e a si mesmos.

Condenados a sermos livres, encontramos a angústia. Para Sartre, autor da obra "O ser e o nada", a náusea, a angústia e a vergonha são emoções que manifestam a existência em sua autenticidade.

Para Sartre a existência precede a essência, de forma que, como tal, os seres humanos não podem abdicar de sua vocação à liberdade.

Sobre o tema, Sartre trata nossa tendência a nos enganarmos como uma "má-fé", isto é, o modo com o qual nós costumamos nos esquivar das responsabilidades.

É necessário que assumamos as responsabilidades pelo o que fazemos, assim como por nossos projetos.


É através de nossas escolhas que criamos os sentidos que orientam a vida social humana, neste sentido, a liberdade liberta mas também condena, pois, sem certo sentido, estamos condenados a ser livres.

Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette

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quinta-feira, 7 de julho de 2016

Introdução à Filosofia: Existem vícios benéficos?


A arte da aparência?

Na política, a moralidade parece excluída, ou, ao menos, menosprezada.

A missão do governante, segundo a visão de Maquiavel (1649-1527), era manter a segurança, a ordem e a prosperidade do estado.

A arte de governar, neste caso, parte de uma objetividade, e o critério é o realismo, pois devemos consideramos os seres humanos como são, e não como deveriam ser.

A missão do "Príncipe", que é o governante sagaz, deve ser: 1) tomar o poder; 2) assegurar a estabilidade política; 3) construir a república unificada.

A política, tal qual a pensa o filósofo de florença, não deve assumir do exterior sua própria moralidade, mas isso não significa que o político deveria ser "imoral".

O que o filósofo mostra e intriga, é que o homem que sempre se comporta bem, entre tantos que não são bons, se destrói por completo, caso não saiba, quando necessário, agir com a força e astúcia.

É por isso que certos vícios podem, inclusive, assegurar a estabilidade e bem-estar de um povo.

No entanto, quando Maquiavel parece sugerir que há uma separação entre a ética individual e a ética na política, desde então tem-se atribuído a ele a frase:

"Os fins justificam os meios"...

Na verdade, o que ele mostra é que na política como na vida, os meios devem se adequar aos fins!

É por isso que em política, explica o filósofo em sua obra "O Príncipe", que a piedade mostraria mais danos que vantagens, pois esta apresenta fraqueza, e na política, o governante deve saber administrar tanto a piedade quanto a crueldade, conforme a necessidade.

Esta visão realista da política se pauta em uma antropologia extraída da constatação, de que os seres humanos são:

"ingratos, volúveis, falsos e dissimulados, temerosos dos perigos, ávidos de lucro, enquanto lhes trazes prazeres e vantagens e não precisas deles, estão todos ao teu lado, a ti oferecem o sangue, os bens, a vida, os filhos, como disse acima, mas, quando precisas deles, todos revoltam-se contra ti".

Segundo uma antropologia um tanto quanto utilitário, as amizades, o amor, as relações humanas se pautariam no interesse recíproco.

O homem, egoísta por natureza, deve ser controlado pelo estado, pois o outro é visto como um concorrente em potencial.

O governante deve, pois, ser tanto raposa quanto leão:

O leão não se defende das armadilhas e a raposa não se defende dos lobos. Logo, é preciso ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para assustar os lobos.
Se na política o que conta é a aparência e não a essência, Maquiavel desfaz essa imagem de perverso, tão logo explica em sua obra que o príncipe é um governante sábio, que ao utilizar todos os recursos para a administração do estado, governa para o bem comum, e não para interesses particulares.

Aqui podemos notar o quanto muitos de nossos políticos, no Brasil, estão longe de ser ditos "maquiavélicos", pois eles governam para o particular, e não para a prosperidade universal, tal qual propõe o filósofo florentino.


Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette

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quarta-feira, 6 de julho de 2016

O Racionalismo poetando e outros devaneios


A dúvida 
veneno

a verdade 
antídoto

o pensamento 
medida

a razão 
o fundamento.

O que faz ser o que somos?


O que subjaz

o que permanece

o que está aí

na metafísica

das coisas

de um filosofar

cartesiano


a res cogitans

coisa pensante

fechada em si

é 

preponderante!



Enquanto o tempo 

faz de tudo faz passageiro

na unidade do eu/pensamento

a razão 

é o entendimento.


Imaginar...

querer...

sentir...

no reino 

do conhecimento

o rei se diz 

puro pensamento

ou a compreensão 

no pensar.



Mas o desafio 

é decifrar 

a natureza do pensar

e o todo

interpretar...


mas como julgar

o ente singular ?

e

experiências

sensações 

que 

diante da razão

outra ordem

põe em questão?


O impedimento

é arbitrário


 pois no reino

da razão

cadê a sensação?

e ...

a experimentação?


e o sujeito singular?

diz o empirista

sagaz!

E na região do sentimento 

em que a priori 

não há


o radical 

idealista 

filósofo 

racionalista


 há de aceitar

uma ruptura 

no pensar.

De encontro 

à ambição 

do tecnicismo 

racionalista

metódico 

calculista

limites

ele tem:


o humano, as sensações, os sentimentos


Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette

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terça-feira, 5 de julho de 2016

Introdução à Filosofia: o enigma do pensamento





A beleza do mundo e a beleza dos corpos se mostram por si, já a beleza do xadrez, da filosofia e da vida, estas exigem perturbação.


A filosofia nasce da falta: queremos algo que não temos!

O amor pelo conhecimento é uma carência insana: como amar algo que não temos?

O filósofo é um sujeito peculiar...

Ocorre que queremos o conhecimento, mas não sabemos, até então, que é o conhecimento... Mas esta insanidade é fundamental.

A fanfarrice no mundo, a suspeita de que as coisas não são o que parecem, a solidão em um mundo com bilhares de pessoas, a desordem apática de pátrias sem educação.

A volúpia do xadrez e da filosofia, nos dias atuais, é uma liberdade que doa sentido sobre um vazio.


A razão abre espaço para sua própria transgressão, pois nossa mente, tratada metaforicamente como um armário, ela não deve ser preenchida de modo automático e irrefletido.

O pensar nossa própria experiência pessoal é uma arte de cultivar o espírito. No reconhecimento desta nossa subjetividade, toda transgressão do pensamento propõe substituir a ausência de sentido.

É necessário selecionar, saber pensar, tal qual fazemos ao organizar e reorganizar este nosso próprio eu!

Neste ponto discordo de Nietzsche. Nosso eu não é como um teatro em que personagens entram e saem, de acordo com a peça. Temos marcas, nossos personagens ficam em nós, ainda que possamos modificá-los e aperfeiçoá-los... 

A arte de pensar visa, sempre, um ultrapassar nossa ignorância - transgredir pelo pensamento é fazer de nossa experiência singular um lugar de aperfeiçoamento.

A transgressão do pensamento é o próprio pensamento se pensando. 

Só há pensar na transgressão – Pois se pensássemos sempre as mesmas coisas, seríamos desprovidos de criatividade e aprendizagem.

 Todo filósofo quer conhecer para além do limite, e esta atitude é, em certo sentido, egoísta. 

Assim como todo enxadrista, egoísta que ele é, sempre quer vencer... 

O outro como obstáculo, diante de todo desafio pessoal, as vitórias são atos de violência. A ética é o limite desta transgressão, mas nem sempre a ética consegue fazer barreira à violência. 

O próprio pensar é algo violento... 

Mas que é o pensar ele mesmo?

A inteligência artificial é pensamento? 


Os computadores reproduzem dados ou jogam xadrez? 

Lembremos que existem computadores mais capazes de jogar xadrez que nós... 

Aparte as controvérsias dos Matchs Kasparov-Deep Blue, ao jogar xadrez, tudo indica que fomos “ultrapassados pela máquina”. 

Somo seres débeis, limitados e finitos... 

Então, por quê continuamos perdendo nosso tempo praticando e pensando o xadrez? 

Acontece que não apenas jogamos xadrez: pensamos ao jogar xadrez pensando! 

O prazer estético, a surpresa da descoberta, um tanto de esporte e muito de ciência, o jogo como prática social, todos estes elementos fazem do xadrez mais que uma ilustração robótica. 

O xadrez poderá ser modificado, no futuro, diante de tamanhos conhecimentos que são agregados diariamente em nosso nobre jogo, mas dificilmente o xadrez morrerá. 

O mesmo acontece com a filosofia. 

Até a morte, como possibilidade da impossibilidade (Heidegger), ela acrescenta sentido àquele que se põe a filosofar e a indagar... 

Após mais de dois mil e quinhentos anos de filosofia ocidental, tanto foi acumulado e muito produzido, mas ainda assim a filosofia é uma expectativa que continua abrindo espaços, e sua realização plena é mais um ideal filosófico que uma verdade constituída. 

Toda dimensão esquecida, remontar a algo que ninguém pensou, encontrar a cereja do bolo, alcançar a filosofia que tudo explica, assim como dar o xeque-mate perfeito, tudo isso é uma forma egoísta de vencer o mundo. 

Mas temos que ser, um pouco, egoístas... 


Muitas vezes jogamos xadrez por mais de 8 horas seguidas com os amigos e queremos mais! 

Estudar filosofia uma vida inteira e, por fim, alcançar a conclusão: “Só sei que nada sei” (Tal qual Sócrates!!!). 

Filósofo-Enxadrista: ambos são seres pensantes por excelência! 

O enigma do pensamento, em pensando coisas diferentes/afins, parte dos mesmos pressupostos. 

É por isso que a preguiça intelectual limita o nosso ser... Quem não gosta de pensar dificilmente terá sucesso na filosofia ou no xadrez. 

Mas pensar é chato porque cansa! 

Claro que sim! 

Mas não cansa fazer academia, praticar jiu-jitsu, fazer sexo, ou andar de bicicleta? 


Viver exige esforço, pois o agradável nem sempre é o melhor... 

Em um mundo escroto e preconceituoso como o nosso, pensar é preciso! 


O triunfo da idiotice é expressão da proibição do pensamento. 

Um tiro no escuro, uma flexa lançada sem direção... 


Tal qual algo que escapa à razão, é a razão que se põe a filosofar e a querer decifrar as coisas... 

Contra a desesperança das crises e dos hipócritas, toda saída construtiva e coletiva supõe uma atitude de pensamento... 

Como não-parasitas, é necessário violentar o banal e pensar. 


Ocorre que todo manifesto por uma defesa digna de nossa humanidade deve perpassar a valorização do pensamento, até porque, caso lembremos de René Descartes, diz o filósofo que jamais deixamos de pensar, pois nossa natureza é o pensamento! 

Embora não precisemos ser “cartesianos”, o escândalo do pensamento é sim acessível universalmente. 

Pensar todos podem, pois temos bom senso, isto é, todos temos a razão e, assim, todos pensamos. 

Mas saber pensar é difícil, pois pensar para o aperfeiçoamento exige ao menos duas coisas fundamentais: talento e método. 


É claro que existem pessoas que não precisam estudar: estes são os gênios – são o próprio talento personificado assombrando o mundo. 

Para um gênio pensar e criar é algo simples e automático. Sua comunicação com o mundo é tal que ele abre sentido e faz do mundo seu parque de diversões. 

Para os gênios tudo é mais fácil, pois suas mentes explodem criatividade e eles “automaticamente” inovam e consegue sucesso... 

Já as pessoas normais, como eu, e talvez você, por exemplo, nós precisamos cultivar habilidades, e, assim, progredir metodicamente para alcançar sucesso. 

Podemos lamentar nossa mediocridade ou aperfeiçoá-la... 

Se o gênio já recebe informações e as associa de modo inovador e criativo, as pessoas normais precisam organizar suas informações de forma associativa, estabelecendo relações produtivas, de forma a dar sentido ao que é recebido, bem como repetindo habilidades e testando-as de forma continuada. 


Pense em quando aprendemos tabuada pela primeira vez. Primeiramente repetíamos sem nenhum sucesso. Pouco a pouco progredimos, de forma a decorarmos as operações. Mais tarde conseguimos dominar certas operações. 

Mas não devemos tratar a filosofia e o xadrez como a tabuada, pois este é um primeiro nível de conhecimento: a repetição-memorização. É necessário ir além! 

No xadrez o valor absoluto das peças é, na prática, uma orientação imprecisa, pois o valor relativo, em cada situação, é o que orienta o bom enxadrista, que não vê o jogo mecanicamente... 

A parte mais difícil é pensar as razões lógicas e profundas que orientam determinada ciência. 

Toda ciência é um saber, e todo saber sério supõe uma estrutura de conhecimentos explicativos. Saber explicar algo é superar a superficialidade, a banalidade, o senso comum. O filósofo, em geral, é aquele com intenção de superar aparências, tal qual o enxadrista que se dedica a progredir, quer superar o nível principiante, entendendo o porquê do jogo... 


Quando começamos a entender certas filosofias, para além da decoreba, assim como quando conseguimos pensar o xadrez para além do “come-come”, o xadrez torna-se uma espécie de prática filosófica. 

Este é o ponto em que eu queria chegar: não é preciso ser mestre em xadrez para que sejamos pensadores do xadrez! 

O fundamental, para aquele que almeja visualizar o xadrez como uma experiência existencial, como um instrumento para que possamos progredir intelectualmente, é que seja cultivada essa experiência de pensar o jogar pensando. 

Na verdade, há que se pensar o xadrez como uma filosofia da experimentação. 


Meu amigo, amante-viajante do xadrez – Joca de Deus! Ele brincou comigo me chamando de “filoenxadrista” – Tal que me desafiei a pensar: o que é um filoenxadrista? 

Segundo meu entendimento, o “filoenxadrista” é um amante do xadrez-ciência. Ele é aquele que se propõe a indagar, estudar e tratar o xadrez como uma continuada experiência do pensamento humano. 

Ele não apenas joga ou é bom jogando xadrez – Ele se propõe a indagar sobre o que é o xadrez! 

Podemos aqui assinalar que existem campeões mundiais de xadrez que não sabiam explicar o jogo ou ensiná-lo, enquanto que existem treinadores de xadrez de elite que sequer chegaram a Grandes-Mestres, mas ensinam xadrez como ninguém! 

Assim, há aqueles, como Capablanca, que foi gênio, teórico e campeão mundial... 

Mas também há grandes teóricos que não se destacaram em nível mundial na prática do jogo...Dvoretski é um grande exemplo, o qual se destacou como treinador e não como enxadrista... 

Também há aqueles como Nimzowitsch, por exemplo, o qual não se destacou ao ponto de ser campeão mundial de xadrez, mas teórico que foi, contribuiu de forma significativa na compreensão do jogo... 

Entre Grandes-Mestres e não mestres, de todo modo, como prática social e filosofia existencial, o xadrez pode ser um aliado poderoso no aprimoramento de nosso ser e na busca pessoal pela felicidade. 

Um bom princípio, para começarmos, é aprender a perder e saber ganhar! 


Muitos são insuportáveis quando perdem, ou aterrorizam quando ganham! 

Tal postura é tão nociva que já presenciei trocas de socos e chutes em partidas de xadrez! 

Esta não é uma filosofia saudável.... 


A Filosofia nasce na Grécia por volta do século VI ac. Como tal, o filósofo é aquele que se põe a indagar, a perguntar, cultivando o espírito na perspectiva de alcançar a sabedoria. 

O filósofo quer saber o “porquê”, tal como o enxadrista que observa uma partida de xadrez pela primeira vez, ele procura a intensidade da presença de um conhecimento essencial que deve estar ali, embora, no momento, como iniciante, ele só vê, mas não entende o “porque”. 


O desejo de pensar, o “logos” como sentido, é uma palavra que remete a “reunir algo significativamente”. No cultivo do saber, o filósofo busca as causas e razões das coisas. 


O mesmo ocorre em nossas vidas: ao longo dos dias, na história pessoal de nossa vida, seguimos experimentando coisas e registrando tais impressões em nossa mente. Quanto a isso tanto racionalistas quanto empiristas concordam. 


Estes registros podem não ser significativos e podem não produzir associações. Por outro lado, quando bem experimentados, pensados, eles podem ser muito significativos e plenamente associativos. 

Bons enxadristas em geral são bons em matemática e jogam bem pôquer. Também costumam saber estudar. Por que isso ocorre? Ora, o pensar é universal! 


Quando aprendemos uma língua estrangeira, fica muito mais fácil, dizem os linguistas, aprender outras. A mente humana deve ser exercitada de forma associativa. Quando aprendemos algo no xadrez devemos aplicá-lo na vida, na filosofia, nas relações de amizade, e vice-versa! 


Pensar de forma associativa é administrar de forma inteligente o que aprendemos no mundo, de forma a obtermos o máximo de sucesso em áreas distintas. 


Algo que achei incrível na minha vida foi que em diversos momentos, pelas necessidades do trabalho como professor de filosofia, as vezes ficava meses sem jogar ou ver uma única partida de xadrez, mas ao me dedicar com afinco à filosofia, quando voltava ao xadrez, mantinha um excelente ritmo de jogo. 


O xadrez, a filosofia, assim como o pôquer e a matemática, estas são atividades irmãs. 


Ambas trabalham com as associações de pensamentos simples e complexos, os quais envolvem tomada de decisão, construções de dados lógicos, memória, concentração e método. 

Mas para progredirmos nestes jogos, como “filoenxadristas”, tudo depende, pois, do modo como tratamos tais conteúdos em relação às nossas habilidades ordinárias e rotina de estudos. 

Podemos ver as coisas como lixo, sem razões e esperança, ou podemos pensá-las e questioná-las de forma diferenciada. 


Todo bom mestre espera que o discípulo progrida e que um dia o supere... 


Como diziam os gregos, a filosofia é uma atividade indispensável para aquele que busca uma felicidade real. 


Epicuro, filósofo grego helenista, dizia que a filosofia é como a medicina, deve curar as doenças da alma. 


Nossa mente requer cuidados, pois Aristóteles é preciso ao explicar que o ser humano pode ser o melhor ou o pior de todos os animais! 

O pensamento humano não é bom ou mau, ele pode ser o que dele fazemos. 


Os fenômenos mentais, como sensações, percepções, ideias, decisões, etc., devem ser organizados significativamente, associados em diversos âmbitos e, principalmente, testados e aprimorados sistematicamente. 


As decisões da vida ordinária, assim como as decisões filosóficas e enxadrísticas, elas devem ser observadas, testadas, corrigidas e aprimoradas metodicamente. 

O bom estudioso da filosofia é irmão do estudioso do xadrez: além de praticar tais habilidades, eles são capazes de entender que por trás dos acontecimentos superficiais existem normas, princípios, regras e métodos que delimitam os mundos da experiência filosófica e da experiência enxadrística. 



Todo bom enxadrista é “fominha” por jogar xadrez. Mas os bons estudiosos do xadrez, além do desejo contínuo de praticar o jogo, pensam sobre o próprio pensar que envolve o xadrez. 

Embora acusado de conformista por aqueles que não entendem sua filosofia, Descartes possui um viés estoico muito interessante, ao mostrar que o ser humano, antes de tentar mudar o mundo, deve mudar a si mesmo. 

Ora, como posso querer que o mundo seja melhor se eu, “filoenxadrista”, não busco ao menos progredir? 

Interrogar sem cessar, ser chato, vivenciar os erros e sofrer com eles para extrair seu antídoto... O itinerário do filósofo, do enxadrista e das pessoas vivendo diante da morte, ele é o mesmo: 

Pensem em um labirinto: a) podemos seguir em frente sem pensar, tateando de um lado ao outro, sem qualquer sentido; b) podemos planejar, testar os caminhos, e, assim, buscar uma saída, ainda que não saibamos se há uma saída do labirinto! 

Não sabemos se há sentido para a vida para além da vida ela mesma! 



Mas podemos dar sentido ao que temos, ainda que o sentido definitivo de todo sentido sempre seja um enigma... 

É necessário atenuar a imbecilidade humana que é universal à maior parte de nós! Deixemos os gênios de lado e pensemos nossa própria ignorância. 



O princípio do conhecimento, à la Sócrates, é reconhecer esta nossa ignorância. 

Filosofia da humildade... que seríamos nós sem o pensamento? Só ele releva o limite, e todo momento soberano da humanidade passa por seu esplendor, bem como todo ato de extrema ignorância supõe sua carência. 

Ir ao extremo do pensamento é o desafio da humanidade. 

A suprema interrogação filosófica coincide com o pensar. 

O próprio real é um revestimento do pensamento 

Esgotar, violentar, exprimir, alcança-lo tal qual ele é... 

Toda filosofia do cuidado supõe uma certa arte de bem pensar. 

O momento do filosofar é um prolongamento da vida – e o enigma do pensamento é uma transgressão em busca de um fundamento. 


Contemplação silenciosa do mundo, tal qual um jogo de xadrez, o ápice da filosofia é encontrar o pensar nele mesmo. 

Mas enquanto não encontramos o próprio pensar, podemos desenvolver nosso próprio pensar. 


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Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Introdução à Filosofia: A Filosofia do cuidado


 
Cuidar não é proteger, é cultivar
 
Quando protegemos afastamos algo perigoso - e assim nos precavemos por temor
 
Com o cuidado a situação é bem outra: nos precavemos por amor
 
Desde os gregos antigos a Filosofia pode ser entendida e cultivada como uma arte do cuidado
 
Cuidar do mundo, cuidar a sociedade, cuidar a si mesmo
 
O tempo, tomado como passagem (passado/presente/futuro)
exige que saibamos como organizar o mundo, a sociedade e também nossas emoções.
 
 
 
Como o tempo não para, ele pode estar a nosso favor ou contra nós.
 
Não é questão de dinheiro, ou questões estéticas, pois existe muitos ricos e pessoas belas que chegam a se suicidar de tamanha infelicidade.
 
Basta que olhemos os noticiários de hoje: uma ex-miss Brasil, depressiva e suicida...
 
A arte do cuidado, embora tenha sim o cuidado com a beleza, ela é muito mais...
 
Ocorre que destruímos nosso corpo pelos vícios e excessos. Assim como destruímos nossa mente pelos pensamentos estúpidos e pelos hábitos perniciosos
 
As dietas, cada vez mais insanas, são mostras claras de um desequilíbrio social. Qual o preço por sacrificarmos nossa saúde?
 
É claro que o perigo atrai. Radicalizar, surpreender, transgredir...Mas em toda transgressão, temos que calcular os riscos...
 
Vejamos o que o fazemos com o nosso corpo: todos os dias o limpamos, passamos perfumes, e de tempos em tempos cortamos os pelos e muitos até fazem procedimentos estéticos (vejam o que as mulheres gastam com isso!)
 
Comprar roupas, jóias e adornar, etc., toda essa ordenação do corpo, o culto do corpo, ele é deslocado, muitas vezes, do cuidado da mente
 
Descartes mostra com muita propriedade o quanto somos a mistura indiscernível de mente e corpo.
A alma humana não está no corpo como se este fosse um navio e ela um piloto, ao contrário!
 
Todo dano no corpo é um dano na alma, e vice-versa!
 
Desde os filósofos helenísticos gregos, como Epicuro, por exemplo, e boa parte da Filosofia Oriental, como o Budismo, estas mostram o quanto é equivocado dissociar o cuidado do corpo do cultivo da mente.
 
Cuidar do interior, fazer de si mesmo um experimento, esses são elementos importantes destas artes de trabalhar o nosso próprio ser para além da esfera estritamente estética.
 
Se o pacote da embalagem é fundamental, como todo bom marqueteiro sabe... seu conteúdo também o é! Como todo bom filósofo defende!
 
O ideal é que aparência e essência se complementem... Mas não é assim tão simples...
 
O real do que somos não deve ser  transgredido pelo exterior.
 
Michel de Montaigne mostra com muita propriedade o quanto somos escravos das convenções sociais. Dizia o filósofo que devemos criar um casulo, como ele fazia em seu castelo, e este lugar seria o espaço para que pratiquemos nossas experiências mais íntimas.
 
A metáfora do castelo é muito interessante. Em nossa mente devemos deixar espaços para que vivamos, pensemos e cultivemos experiências pessoais.
 
Família, emprego, convenções sociais, tudo isso deve ser administrado segundo limites, de tal modo que esse casulo, esse cantinho só nosso, seja a válvula de escape de uma existência que deve ser verdadeiramente vivida.
 
Viver para si mesmo - e quando tenhamos
 amor e amizade, que seja para edificar o castelo do nosso próprio ser.
 
Devemos selecionar quem adentra em nosso casulo...
 
O viver para si mesmo não é uma arte do egoísmo, ao contrário, em sua obra Ensaios o filósofo mostra que nossa experiência psicológica, de um eu que sempre está em construção, pois é inacabado, difuso e complexo, ele é mais bem sucedido quando encontra o outro.
 
Esta experiência com o amor e a amizade é justamente a ultrapassagem de uma esfera limitada para o alcance de algo que nos escapa, nos toca, nos seduz e traz felicidade.
 
A amizade verdadeira, dizia o filósofo francês, além de ser extremamente rara, ela é um dos maiores bens, pois nela ultrapassamos nosso eu (ego).
 
Podemos pensar tal situação como próxima do amor - amar não é gozar o outro, é gozar com...
 
É por isso que o estupro, por exemplo, não é apenas o uso do corpo de outrem, mas é uma transgressão radical e banal da própria humanidade.
 
O desrespeito à humanidade e à sociedade brasileira aparece claramente quando políticos que vivem às custas dos impostos da população chegam a fazer apologia ao estupro ou dizem que a culpa é da vítima...
 
Deixando de lado tais figuras bizarras da política brasileira atual,  todo amor deve ser relação/encontro -
 
É o "fazer junto".
 
Amor é cultivo da vida/encontro/gozo
 
Embora escrever assim seja simples, admitimos que a relação com o outro é sempre polêmica. Pois temos desejos e necessidades pessoais que colidem...
E não estamos bem sempre...Não são apenas as mulheres que têm TPM!
 
De todo modo, o equilíbrio, sempre ele, é a recomendação filosófica tradicional!
 
Quando o proteger é um cuidar, e mesmo um ciúme equilibrado, que é mais cuidado que ciúme, todos estes são elementos que, quando adequadamente administrados, eles esculpem a relação positivamente. 
 
Evidentemente, o contrário é prejudicial.
 
Já dizia Hipócrates em relação à Medicina: Faça que seus alimentos sejam seus remédios, e seus remédios seus alimentos!
 
É por isso que as brigas e separações são avassaladoras, pois mostram o abismo entre duas pessoas e a impossibilidade de manter o encontro.
 
O nosso eu, neste sentido, ele se realiza mais plenamente quando deixa de  viver apenas o si-mesmo e promove esta arte do encontro, do cuidado de si mesmo com um cuidado com o outro, o que chamamos em Filosofia de intersubjetividade.
 
 
A experiência desta intersubjetividade, do viver junto e do viver com é mais que uma necessidade ética, mas ela é também experiência estética.
 
O maravilhamento com o mundo, com o outro, neste processo de enfeitar nossas relações com as coisas, por estes processos somos capazes de edificar nossas emoções e experiências, atribuindo sentido e fazendo da vida algo prazeroso para além do puro prazer sensorial.
 
Tanto é melhor quando corpo e mente se cuidam e se confundem - É assim no amor e também no cuidado de si.



Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette
 
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