segunda-feira, 8 de maio de 2017

Como ser feliz na desgraça ou adversidade: O estoicismo e suas recomendações





Sêneca e o estoicismo


A filosofia estoica é inspiradora. Por outro lado, ser estoico é uma saga não aconselhável! Isto porque a ideia de superar as paixões, ou mesmo aniquilar nossos apetites, se mostra, na maioria das vezes, impossível.


O homem é um cidadão do mundo, nos ensinam os filósofos gregos helênicos!


Hoje, com tantos problemas em relação à imigração, a ideia de nacionalismo parece inevitável. Ilusão nossa! Desde os gregos, eles mesmos romperam com a ideia de uma cultura una, indissolúvel, fechada, e aceitaram a mistura com os orientais, macedônicos, persas, etc.


De fato, a imigração traz problemas, sobretudo quando ela é econômica ou/e política, como é o caso dos nossos colegas venezuelanos que estão se refugiando no Brasil.


Qual o caminho a seguir? Fechar os portões ao outro, ou abri-los, porém, deixando-os à sorte? 


E se não damos, sequer, conta de nossos problemas, de nossa própria miséria, como ajudar o outro a superar a sua?


Com as eleições na França e Alemanha, notamos o quanto este tema é atual e requer discussão séria e aprofundada.


Para os estoicos, o homem é um cidadão do mundo, capaz de viver tanto na glória de uma cidade, ou em sua decadência, ou mesmo, em um cidade que não seja sua, ou, se necessário, no isolamento completo.






Saber viver, pois, requer coragem de ultrapassar as relações de necessidade.


É preciso, pois, saber seguir o fluxo das coisas, e fugir, ou se isolar, caso a sorte nos leve a tal.


Para o homem consciente, a inquietação constante é fonte de dor. Por isso, a felicidade é possível, desde que evitemos a dor. Mas como evitá-la? Para os estoicos, o dever ético, bem como a vida serena, seriam remédios para as perturbações desnecessárias.


Informações breves e relevantes sobre conceitos estoicos:


O Estoicismo nasce com Zenão de Cítio (334-262 ac.). Ao que tudo indica, a divisão estoica da filosofia em lógica, ética e física foi fundada por ele. A escola fundada por Zenão ficava no local com o nome “pórtico pintado” (Stoa poikile), daí muito provavelmente provém o termo “estoicismo”. Um dos temas fundamentais do pensamento estoico é a racionalidade. Para eles existe uma ordem racional universal (logos).


Outros conceitos fundamentais:


ATARAXIA: imperturbabilidade – ausência de inquietação. É uma forma de resolver o problema da felicidade pela via negativa. A felicidade é possível desde que não vivamos o seu contrário: a dor. Para os epicuristas a felicidade está no prazer estável, enquanto que para os estoicos está na indiferença pelas paixões e pelo domínio das emoções (autarquia – a condição de autossuficiência do sábio). De outra parte, a felicidade, segundo os cínicos, se assenta na renúncia a qualquer tipo de necessidade, e para os céticos, na epoché (suspensão do juízo – pois nada é mais isto que aquilo – não havendo verdades absolutas).






DEVER: Fundamento da ética estoica, segundo a máxima “vive conforme a natureza”, à qual significa respeitar o “logos universal” (razão universal), a natureza humana e as ações aconselhadas pela razão.


Iniciação ao pensamento estoico, com base na filosofia de Sêneca.


SÊNECA (4 ac. – 65 dc.) nasceu em Córdoda (Espanha). Recebeu uma privilegiada educação, se lançou à carreira pública e foi preceptor e depois conselheiro de Nero. Acusado de traição pelo antigo discípulo, foi obrigado à um retiro forçado que durou anos, e, por fim, ao suicídio.






Sugestão de leitura para introduzir-se na obra de Sêneca: “Da Tranquilidade da alma” - Cap. IV: Doutrina pessoal de Sêneca; Cap. VIII: Maus efeitos da riqueza; Cap. X: Como se portar na infelicidade; Cap. XI: Superioridade e desprendimento do sábio.






Referências Bibliográficas:


SÊNECA, Lúcio Aneu. Da Tranqüilidade da alma; Medéia; Apocoloquintose do divino Cláudio. Tradução e notas de Agostinho da Silva [et al.] In: Epicuro/Lucrécio/Cícero/Sêneca/Marco Aurélio. 3ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1985. Coleção Os Pensadores.






Observação: Os textos abaixo são expostos com fins de estudos, sendo eles, como assinalados, parte da coleção Os Pensadores, devidamente citada. Não reproduzir este texto e estas citações.






Cap. IV: Doutrina pessoal de Sêneca


IV — 2. Aqui está, segundo minha opinião, o que deve fazer a virtude e aquele que deseja a virtude: se o destino triunfa e lhe tira os meios de agir, que ele não se apresse em virar as costas e fugir, largando suas armas e tratando de procurar um abrigo, como se existisse um lugar no mundo onde se pudesse escapar do destino: mas que ele imponha somente maior reserva à sua atividade e procure com perspicácia algum emprego que lhe permita tornar-se outra vez útil à cidade.


3. A carreira militar lhe é proibida? Que ele pretenda as magistraturas: está ele reduzido à vida particular? Que advogue. O silêncio lhe é imposto? Que ele dê a seus concidadãos o apoio mudo de sua presença. Mesmo o acesso ao fórum lhe é perigoso? Que nas residências particulares, nos espetáculos, à mesa, ele se mostre companheiro honesto, amigo fiel, conviva moderado. Ele não pode mais cumprir com seus deveres de cidadão? Restam-lhe os deveres de homem.


4. Daí o princípio do qual nós, estóicos, estamos orgulhosos: o de não nos encerrarmos nas muralhas de uma cidade só, mas de entrarmos em contato com o mundo inteiro e de professarmos que nossa pátria é o universo, a fim de oferecer à virtude o mais amplo campo de ação. Excluem-te do tribunal, expulsam-te da tribuna e dos comícios? Volta-te e olha: quantas extensões imensas, quantas nações se abrem para ti! Por mais vasta que seja a parte do mundo que te é vedada, aquela que te é permitida será sempre maior.


8. Assim, a melhor regra é combinar o repouso com a ação, todas as vezes que a atividade pura nos for perturbada por impedimentos acidentais ou por condições políticas: pois jamais todos os caminhos nos serão interditados, de modo que não nos reste nenhum meio de praticar uma ação virtuosa.


















Cap. VIII: Maus efeitos da riqueza


VIII — 1. Passemos ao domínio das riquezas, principal fonte das misérias dos homens: pois, comparando-se todos os nossos outros perigos, prazeres, doenças, temores, desgostos, sofrimentos e preocupações de toda espécie, com os males que nascem do dinheiro, será deste lado que muito claramente penderá a balança.


2. Figuremo-nos como se suporta mais facilmente não possuir do que perder; e perceberemos que a pobreza tem muito menos tormentos a temer e muito menos riscos a correr. Pois é um erro pensar que os ricos aceitam mais corajosamente suas penas: que o corpo seja grande ou pequeno, as feridas lhe são igualmente dolorosas.


3. Bíon disse com fineza: "Não é porque se tem mais cabelos sobre a cabeça que é menos desagradável sentir arrancá-los". Não é diferente no caso do pobre e do rico, e seu sofrimento é o mesmo: o dinheiro se apega tão intimamente à alma, que não se pode arrancá-lo sem dor. É, aliás, eu o repito, mais suportável e mais simples nada adquirir do que perder alguma coisa: daí vem que se vê um ar mais alegre nas pessoas que a fortuna jamais visitou do que naquelas que ela traiu.


4. É o que Diógenes compreendeu na sua sublime sabedoria; e dispôs-se de tal modo que nada lhe pudesse ser tirado. Chama isto pobreza, necessidade ou miséria; dá a esta confiança não importa que nome afrontoso: eu cessarei de julgar Diógenes feliz, quando tu me achares um outro homem que não tenha nada para perder. Ou eu me engano, ou é ser rei viver cercado de pessoas rapaces, de trapaceiros, de bandidos, de ladrões e ser o único no mundo que está ao abrigo de seus crimes.


5. Se se duvida da felicidade de Diógenes, que se duvide também da situação dos deuses imortais, e que se pergunte se eles não são infelizes por não possuírem nem propriedades, nem jardins, nem terras valorizadas pelos braços de mercenários, nem capitais colocados com grandes juros na praça do comércio. Não é uma vergonha estar fascinado pela riqueza? Vamos! Volta-te para o céu: aí verás deuses despojados, dando tudo ou nada conservando para si. E, pois, pobre, no teu parecer, ou semelhante aos deuses imortais o homem que se despoja de todos os bens que dependem da fortuna?






Cap. X: Como se portar na infelicidade






X — 1. Todavia, eis que tombaste em qualquer situação difícil, sem que hajas feito nada para isso: a adversidade pública ou particular passou-te um laço pelo pescoço, laço que não podes mais nem desapertar nem arrebentar. Lembra-te de que os desventurados que são peados começam por se revoltar contra os pesos e as cadeias de suas pernas; e que, desde que eles começam a se resignar, em lugar de se revoltar, a necessidade lhes ensina a suportar sua sorte com coragem e o hábito torna-a suportável. Encontrarás em qualquer situação divertimentos, descansos e prazeres, se te esforçares para julgar teus males leves, antes de considerá-los intoleráveis.


2. O melhor título da natureza ao nosso reconhecimento é que, conhecendo todos os sofrimentos para os quais estávamos destinados na vida, para abrandar nossos padecimentos ela criou o hábito que nos familiariza em pouco tempo com os mais rudes tormentos. Pessoa alguma resistiria, se, ao continuar, a adversidade conservasse a mesma violência que tem na primeira desgraça.














Cap. XI: Superioridade e desprendimento do sábio


4. Retornar para o lugar de onde se vem: que há de cruel nisto? Quem não


souber morrer bem terá vivido mal. É preciso, pois, começar por despojar a


existência de seu prestígio e por colocá-la entre as coisas sem valor. Somos hostis aos gladiadores, diz Cícero, quando eles querem, custe o que custar, bter a vida livre; nossa simpatia é granjeada quando se torne evidente que eles a desprezam. Nossa situação é a mesma, pois quantas vezes morremos, vítimas do nosso medo de morrer!


7. Eis a doença, a escravidão, minha casa que desmorona e se incendeia: nada de tudo isto é inesperado para mim. Eu sabia no meio de que caos a natureza me condenava a viver. Quantas vezes ouvi na minha vizinhança prorromper a voz das carpideiras; quantas vezes vi passarem diante da minha porta os archotes e as tochas que precedem os funerais prematuros! Freqüentemente ressoou ao meu lado o fragor de uma construção que desmoronava; muitas pessoas às quais o fórum, a cúria ou uma conversação acabavam de me reunir, foram arrebatadas durante a noite. De quantas mãos, fraternalmente unidas, a morte rompeu de repente o aperto! Por que me admirar, quando eu me vir, um belo dia, colhido pelos perigos que jamais cessaram de me rodear?


8. A grande maioria dos homens, ao começar a navegar, esquece-se da tempestade. Jamais eu me envergonharia de citar um mau autor, por uma boa intenção: Publílio Siro, poeta mais vigoroso do que os trágicos e os cômicos, quando renuncia aos gracejos vulgares do mimo e às palavras feitas para o público das galerias, no meio de tantos outros versos cujo tom se eleva não só acima do estilo trágico, mas também do cômico, escreveu: "Aquilo que pode ferir um pode ferir todos os outros". Se nos convencermos profundamente desta máxima e se, ao assistirmos às inúmeras desgraças que cada dia caem sobre nosso próximo, pensarmos que elas podiam muito facilmente cair sobre nós, seremos pessoas armadas muito tempo antes do ataque. Não há mais tempo para nos fortificarmos, quando o perigo já nos alcança.


9. "Eu não imaginava que isto me aconteceria!"


"Jamais se acreditara que isto seria possível!" E por que não? Onde está, pois, a



riqueza, que a miséria, a fome e a mendicidade não podem alcançar. Onde está a magistratura, cuja pretexta, o bastão augural e o calçado nobre não são acompanhados de acusações humilhantes, da crítica do censor, de mil infâmias e do supremo desprezo da multidão? Onde está a onipotência, que não é ameaçada pela destruição e pelo esmagamento das violências de um senhor ou de um carrasco? E um longo intervalo de modo algum é necessário: no espaço de uma hora passa-se do trono aos pés do vencedor.

sábado, 6 de maio de 2017

Maquiavel: realismo político e a arte de governar


    

Maquiavel (1469-1527) nos mostra que a ética de um governante (príncipe) deve ser moldável, isto é, ela deve ser capaz seguir o fluxo das coisas e agir de todas as formas para manter um estado saudável, e o governo equilibrado. 

Todas as ações do príncipe, desta forma, sempre precisam ser voltadas para o bem do “todo”. O governante, é claro, não governa para si. 

Eis a diferença capital entre as lições de Maquiavel e a prática política atual em nosso país. Certamente o atual presidente do Brasil não é “maquiavélico”. Se o fosse, governaria melhor. Mas voltemos à Maquiavel!


O filósofo nos ensina que o governante deve fazer o necessário para o bem comum, sobretudo, ao povo, pois mostra em “O Príncipe” o quão pernicioso são os estados voltados a satisfazer os interessas das elites perigosas. Ao se lançar à busca da “verdade efetiva“ da natureza humana, Maquiavel se depara com homens que agem e são bem diferentes daqueles pensados pela tradição filosófica que o antecedeu.

 Maquiavel parece ser o primeiro pensador a esforçar-se por separar o âmbito bem circunscrito da política das determinações estabelecidas por princípios metafísicos advindos de fora dos problemas político-sociais concretos.

 A grandiosidade desta novidade também possuiu grande impacto no âmbito da ética. Para Maquiavel a ética possui determinadas nuances que não podem estar encerradas em princípios eternos e imutáveis, aplicáveis a tudo e a todos. 

Sua compreensão do humano concebe que “o conflito é de todas as coisas pai...”, bem no sentido heraclitiano. 


A ética que pode ser benéfica para um pai de família não o é para o governante de um estado. 

Vemos que isso contrasta em muito com a tão tradicional posição aristotélica, que fundamentando todo o agir humano na busca do sumo bem, levado a cabo pelo exercício da virtude, compreensão esta apresentada em Ética a Nicômaco, dogmatiza uma teoria do meio-termo que possui aplicabilidade absoluta. 

Por sua vez, em O Príncipe, o filósofo florentino “vê”, por todos os lados e em todas as épocas, homens que tendem às suas inclinações, se “desvelando” egoístas, covardes e ingratos. 


Em uma Europa cercada de incontáveis conflitos políticos, religiosos e sociais, o impacto desse novo pensamento nos séculos XV e XVI foi enorme, porém, o tempo não obscureceu a força da clareza desta obra que ainda se faz presente com relevância nos dias atuais. 

Neste sentido, é admirável os elementos que no interior do pensamento maquiaveliano possuem uma relação lógica precisa. 


Não utilizando abstrações metafísicas, Maquiavel não trata de homens que devem ser deste ou daquele modo, mas apresenta-os conforme os fatos da história desde sempre os explicaram. 

É sob esta perspectiva que expõe uma dialética entre o povo e os grandes. O povo quer desenvolver todas as suas vontades, potencialidades e vícios, sem, contudo, ser coagido de qualquer modo que seja, fazendo o que estiver ao seu alcance para viver como lhe apraz. 

Do outro lado deste jogo de forças estão os grandes, querendo, por sua vez, aumentar mais e mais seus poderes, seus bens, e o poder que eles já possuem sobre o povo, afunilando os interesses destes às suas próprias vontades, utilizando-os como instrumentos da manutenção de seu próprio poder.


No desenrolar dessa dialética é notável a posição tomada por Maquiavel. Vivendo entre os séculos XV e XVI, teve a clareza de antever que o fundamento de um estado não pode ser escorregadio e conflitante entre o todo e suas partes. 

O povo nada mais ambicionando que estar sossegado, não quer sofrer, pois cada homem do povo já sofre de um modo ou de outro em sua própria condição de lutar incessantemente por prover sua subsistência e a de seus filhos. Maquiavel alerta que quando o príncipe é sábio, perspicaz, toma o povo como o fundamento de seu estado. 

O povo é o fundamento mais sólido de um estado na medida em que é fácil ao príncipe antecipar suas vontades e controlar seus apetites, pois o povo, enquanto um todo com a característica comum de não querer ser oprimido, é como se fosse uma mesma e una massa homogênea.


Segundo a perspectiva de Maquiavel, quando sabemos de antemão o comportamento de uma determinada coisa, nos é fácil manusear-lhe conforme queremos. O problema, na verdade, está no outro lado desta situação, isto é, nos “grandes” (elite). 

Como já afirmamos anteriormente, os grandes já possuem poder, e querendo mais e mais, realizam suas vontades e apetites subjugando e dominando o povo. Realizando essa iminente e constante vontade de querer, os grandes também estão em profundo contraste com os interesses dos outros poderosos, bem como em dissonância com as vontades do (governante) príncipe. 

Seguindo a lógica destrutiva deste combate, Maquiavel considera primordial ao príncipe tomar uma posição fixa e combater a outra oposta. O príncipe deve defender o povo e debilitar os poderosos para que estes não realizem golpes de estado ou sedições que desestabilizariam os pilares de sustentação do estado. 

É por isso que o homem que chega ao poder com a ajuda dos grandes encontrará maiores dificuldades para dar ordens e governar segundo suas deliberações, já que sempre terá de fazer inúmeras manobras políticas, adulando uns, sendo adulado por outros, unindo uns, separando outros, coisa que “enche o saco” e é perigoso para aquele que governa. Já com o povo é diferente, pois, quando o príncipe estabelece uma ordem, o povo, geralmente, obedece. 

Isso porque os homens do povo estão habituados a obedecer sem contestar, e se contestarem, o príncipe pode punir quem não aceitar suas determinações, pois é fácil punir homens que dificilmente poderão ter força para retrucar tais deliberações. 

Quando um príncipe se mostra bom, justo e virtuoso, o povo lhe obedece. Com a amizade do povo um príncipe terá quem o escute e o ajude na adversidade. 

Já com os grandes é diferente, se um príncipe pune um nobre terá contra si todo um império de homens em latência de se voltar contra ele. No primeiro sinal de dificuldade, ou maquinam sedições para tomar o poder, ou fogem sem mais explicações.


Há um momento importante e esclarecedor no capítulo XV de O Príncipe, no qual Maquiavel registra suas intenções metodológicas, para logo depois assentar sob quais pressupostos um príncipe deve agir. 






“Minha intenção não é descrever sobre assuntos de que todos os interessados tirem proveito, julguei adequado procurar a verdade pelo resultado das coisas, mais do que por aquilo que delas se possa imaginar [...] Assim, é preciso que, para se conservar, um príncipe aprenda a ser mau, e que se sirva ou não disso conforme a necessidade” (MAQUIAVEL, 2000, p. 99). 






Vemos nesta passagem a introdução de novas categorias acerca do justo e do injusto quanto às ações humanas no âmbito político. O conceito “necessidade” ganha força no modo como o filósofo concebe as manobras políticas. 

A lógica do poder privilegia as ações que seguem as pistas assinaladas pela contingência, ao invés de se guiarem em um bem transcendente às ações humanas conflitantes que são postas na vida política. 

Em um mundo repleto de maldade não há como o homem que aspira ao poder, que quer ser o governante, ser indistintamente e completamente bom. 

O príncipe, sendo um homem importante para a manutenção da ordem no estado, ele deve possuir todas as ferramentas que o ajudam a ter plena manutenção do poder. A “virtú” e o vício não podem estar definidos de antemão. A liberalidade se contrapõe à miserabilidade. Mas esta contraposição deve ser burlada pelo príncipe, utilizando tanto uma quanto a outra conforme a necessidade. 

É devido a isso que ele deve sempre aparentar ser liberal. É um erro quando um príncipe espolia o povo para guardar para si, mostrando-se miserável e mau governante. Porém, quando se apropria de impostos, mesmo que excessivos, mas reverte-os para poder melhor governar, com mais recursos, com mais obras, dando mais empregos, melhorando o estado e mostrando a todos que o estado prospera, essa miserabilidade aparente que, transforma-se em liberalidade. 

A grande sacada do príncipe é saber manusear tais instrumentos, na medida em que pouco importa como ele haja “na verdade”.


A excelência moral, para o governante, é mais abrangente e complexa que aquela exercida por um homem comum. 

É muito mais vantajoso, ao príncipe, mostrar-se cruel a ser considerado excessivamente clemente, como se fosse “frouxo nas rédeas do governo”. Por isso é importante esforçar-se por balancear a relação entre o ser temido e ser amado. O príncipe deve ser os dois. 

Os súditos devem amar o príncipe, respeitar sua grandiosidade e ver nele a personificação da possibilidade de realização de sua própria existência. 

Mas, por outro lado, o príncipe tem de ser temido, no sentido de ser respeitado verdadeiramente, para que seus súditos sigam as leis e as determinações dele, se enquadrando naquilo que deles o príncipe espera. 

Porém, se for impossível, em uma dada situação, ser tanto amado quanto temido, que o temam. Pois ao ser amado, um príncipe pode cair nas amarras da sedutora bajulação, e isso é tanto perigoso quanto impróprio aos interesses do estado.


A essência daquilo que o príncipe “é”, na verdade, metamorfoseia-se no parecer ser para o povo. 

A imagem do príncipe se coloca com a sutileza de seduzir o povo, se mostrando complacente, de tal maneira que o povo considere que o soberano é um amigo próximo, disposto a salvar e a zelar sempre por ele. 

A “virtú” do príncipe está baseada na possibilidade latente de sempre ter êxito em seus empreendimentos. Suas ações calculadas demonstram sabedoria e retidão. Contudo, a verdade é que seu projeto é o de ascender mais e mais ao poder. 

Neste aspecto em particular, a ética que surge neste horizonte da ação humana tem certo desprendimento com relação a ética religiosa e a ética familiar.

A lógica dessa ética dada nas relações políticas segue outros princípios e outros pressupostos que aquela que se dá nas relações familiares e religiosas. A partir deste realismo político Maquiavel foi acusado de diversas formas. 

Sem adentrarmos em tais polêmicas, às quais, geralmente, são sem profundidade ou equivocadas, podemos dizer que, para o filósofo florentino, o princípio primordial de um governante é agir sempre pensando na manutenção do poder para que melhor viva um povo. Para conseguir isto, o governante deve ser sábio e corajoso, e ser capaz de tudo e de afetar a todos os seus inimigos, e mesmo “eliminando-os”, quando necessário. 

Uma vez conseguido isto, aí sim ele pode mostrar-se “bom”, zelando pelo bem comum segundo a ética convencional cristã. 


É interessante que muito antes de poesias como as de Fernando pessoa, com suas atrativas máscaras, ou mesmo nas máscaras de Nietzsche, Maquiavel em seu tempo já problematizara o atrativo conflito que se dá entre parecer-ser X ser. 

Se o “ser” é a totalidade do que “é”, do que tem de ser desvelado, penetrado, trazido a tona, pois está subjacente ao que se mostrar no fluxo. 

Podemos nos perguntar: O que tal “completude” pode assegurar à estabilidade de um estado e à felicidade de seus cidadãos? Nada mais que sonhos e aspirações. 

Se o ser é fechado e de difícil acesso, para Maquiavel é preferível se deparar com a hediondez do que se esfacela, pois isto tanto nos é útil quanto palpável, do que ser seduzido por metafísicas de um ser rígido, passivo, incorruptível, eterno. 

É devido a isso que ao príncipe importam as coisas que são apresentadas em seus efeitos, que se mostram, se apresentando deste ou daquele modo, não importando tanto suas causas. 

Neste sentido, ao ter que matar um estrangeiro poderoso, ou um ladrão incômodo, se um príncipe sofrer em seu íntimo, e mostrar-se fraco, balançar, perdoar a aqueles que precisam, segundo a lógica do poder, ele estaria colocando em risco a própria segurança do estado, pois tais eliminações seriam fundamentais à ordem. É claro que o príncipe deve parecer liberal, magnânimo, piedoso, íntegro, fiel, religioso, humano, justo. 

O “rosto” do príncipe deve ser dinâmico, mas sua aparência deve ser moldada conforme as determinações da contingência. Isto porque o seu íntimo é absolutamente inacessível ao povo, e talvez até a ele mesmo.


Em O Príncipe Maquiavel nos mostra como é enganoso falar de um bem comum universal e abstrato sem antes termos um estado firme, que não balance devido a rebeliões estrangeiras ou internas.

 Como a fortuna é sempre imponderável, o governante necessita de barricadas fortes que segurem as marés perigosas. Para o filósofo a fortuna não é de modo algum uma força do mal exterior a toda e qualquer deliberação humana. 

Ao invés disso, Maquiavel nos fala da fortuna como sendo uma deusa boa, em latência de ser seduzida, como uma aliada próxima, que pode nos ser útil quando a entendemos segundo suas peculiaridades, respeitando-a tal qual ela é. 


A fortuna não está restrita a uma única e mesma lógica. Ela é aleatória, circunstancial de tal modo que escapa ao controle humano. Mas ainda assim não devemos temê-la ou deixar que as coisas sigam seu curso sem nos sentirmos capazes de influir em seu curso.

 Como a fortuna é uma deusa, tal como acontece com as mulheres, é preciso que o homem se mostre viril, corajoso, pronto a resistir às adversidades. Mesmo que em seu íntimo ele seja fraco, covarde, preguiçoso, tosco, não há problemas, pois, a chave está em sua capacidade de seduzir. 

Quando isso for bem executado e a deusa se mostrar em todo o seu esplendor, o homem que no exercício da “virtú” conseguir atrair para si a fortuna não tem a que temer, pois poderá desfrutar da abundância de suas delícias.


A “virtú” política está além do bem e do mal, tomados tradicionalmente, pois há vícios que, ao serem executados, demonstram força e virtude, e trazem estabilidade e prosperidade ao estado. 

Na natureza um animal vitorioso é aquele capaz de viver e perpetuar sua própria espécie, aprendendo com o meio que o cerca, agindo certo no momento certo mesmo que não sabendo de antemão como agir. 

Ele tem de fingir ser outras coisas, ter outras cores, ter outros atributos que aqueles que realmente lhe pertencem, pois tem de seguir tanto sua natureza intrínseca quanto as pegadas da natureza que lhe advém de fora. 


Para Maquiavel, com o gênero humano, não é diferente. E é justamente por isso que a virtude política está ligada de modo indissolúvel à capacidade de se encontrar os caminhos mais apropriados nas mais distintas situações. 

E se a fortuna, por um lado, pode nos afetar, por outro lado, ela não é absoluta acerca de tudo aquilo que somos e daquilo que podemos ser, pois temos uma boa quantidade de poder sobre os acontecimentos em relação às nossas próprias vidas. 

Não somos frutos absolutos do acaso, nem protagonistas de uma peça de teatro já escrita por alguém que nos é desconhecido. Para Maquiavel a necessidade predispõe as ações humanas a serem deste ou daquele modo, segundo os problemas concretos que germinam em cada situação concreta, que depende do contexto específico no qual os homens estão inseridos, ávidos de poder, querendo subjugar uns aos outros. 

Assim, como cada homem está sujeito às inconstâncias da fortuna, todos são seres contingentes com o potencial de praticar tanto o bem quanto o mal. 


O príncipe necessariamente tem de ser capaz de “ver a realidade efetiva das coisas”, por mais cruel, suja e corrompida que ela seja. Ele não pode se fixar na bondade, quando preciso “deve” ser cruel para garantir a estabilidade do estado e do seu poder, que carrega consigo o lugar mais alto da hierarquia do estado. 

Grandes dificuldades são constantemente impostas ao príncipe, pois ele tem que satisfazer ao mesmo tempo os interesses do povo, dos poderosos e do exército. 

Independente dos procedimentos utilizados para conseguir a estabilidade neste contexto de conflitos, o príncipe pode ser temido por todos, mas deve fazer de tudo para não ser odiado. Se ele for odiado não terá paz nem nos momentos de lazer que estiver com sua família, muito menos em seu sono. Pois tudo e todos são inimigos latentes. 


São vários os fatores que legitimam ao príncipe a incessante busca de se firmar no poder, mesmo que a custa das vidas de muitos de seus súditos. Ele deve utilizar, para o bem e manutenção do estado, os instrumentos disponíveis, mesmo que tachados de “maldade”.

 Ademais, quando a fortuna impuser, para que um príncipe mantenha a ordem, que ele traía as regras de boa conduta propagadas pelos preceitos cristãos, eliminado politicamente, ou mesmo “materialmente”, quando necessário, aquele que estorva os interesses do governo constituído. Maquiavel é categórico ao afirmar que a liberdade do soberano em praticar vícios, quando a contingência o impuser, “trazem bem-estar e segurança” a ele e ao povo. 


Embora “chocante”, o pensamento de Maquiavel é lúcido, perspicaz e nos ajuda a compreender a política desde sua época até a atualidade.

 Na leitura de Maquiavel dos clássicos e dos fatos da história ele apresenta um método cauteloso, que mistura o terreno da prática da ação política a partir do uso que devemos fazer dos livros teóricos. 

Este é um grande feito realizado, tornando palpável aquilo que antes era demasiado teórico. Em vários aspectos podemos considerar Maquiavel corajoso, contrastando com toda uma já dada história da política, calcada, inicialmente, na teleologia aristotélica, e que mais tarde foi absorvida e remodelada pelos filósofos cristãos, ganhando uma roupagem de cunho religioso.

 A capacidade sintética de Maquiavel também impressiona, pois ele é capaz de orientar as ações do príncipe, sem, contudo, esquecer de bem aconselhar a todos. 

O interessante de todos estes procedimentos examinados é que, de um modo ou de outro, eles sempre retomam o fato de o príncipe dever manter as “aparências”, sendo bem visto por todos, como um ser da mais impecável ética, possuidor de virtude e de sabedoria incontestável. 

Todavia, essa postura não resulta de um capricho do príncipe, mas em sua busca de assentar o estado em bases sólidas, possibilitando o mais possível o desenvolvimento harmônico dos humanos em sociedade.






Autor: Prof. Edgard Vinícius Cacho Zanette



REFERÊENCIAS BIBLIOGRÁFICAS




Maquiavel. O Príncipe. Tradução: Olívia Bauduh. São Paulo: Nova Cultural, 2000. (Coleção Os Pensadores)
 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

II EEPE - Encontro de Ensino, Pesquisa e Extensão da UERR



Submissão de trabalhos para o II EEPE



A Coordenação do II EEPE (Encontro de Ensino, Pesquisa e Extensão da UERR) receberá de hoje (19), até o dia 30 de abril, as inscrições para submissão de trabalhos (resumos, apresentações e exposições culturais) para evento, que nesta edição acontecerá de seis a oito de junho, no campus Boa Vista.

O Encontro terá como tema os “Desafios da Educação Superior em Roraima: Perspectivas do mercado de trabalho em face das atuais políticas públicas”.

Poderão submeter trabalhos os estudantes de graduação, pós-graduação, docentes e profissionais com interesse na temática do evento.

O interessado em participar do evento, seja como ouvinte ou apresentador (resumo ou apresentações culturais) deverá preencher a ficha de inscrição disponível no edital (Anexo C), e encaminhar à Comissão Organizadora por meio da página oficial do Evento, no endereço www.uerr.edu.br/eepe, na aba INSCRIÇÕES.

O interessado em apresentar comunicação oral (resumo) ou apresentações culturais deverá preencher, além da ficha de inscrição do evento, um dos anexos correspondentes a atividade (ANEXO A: para resumos de comunicações orais nos GTs; ANEXO B: para apresentações culturais).

O resultado da seleção será publicado na página oficial do Evento até o dia 14 de maio, com a divulgação do local, data e hora da apresentação dos trabalhos.

Os trabalhos aprovados e apresentados nos Grupos de Trabalho (GTs) poderão ser submetidos à avaliação do Conselho Editorial da “Revista Eletrônica Ambiente – Gestão e Desenvolvimento” para posterior publicação.

Grupos de Trabalho:

GT 1: FONTA/GEPALE – FONTA – Formação de Professores, Novas Tecnologias e Avaliação; GEPALE – Estudos e Pesquisas em Política e Avaliação Educacional (Unicamp/Uerr). Coordenador: Prof. Dr. Josias Ferreira da Silva.

GT 2: Planejando a Amazônia Setentrional – Dinâmicas territoriais, desenvolvimento social e patrimônio em Roraima. Coordenadora: Prof. MSc. Elionete de Castro Garzoni

GT 3: Teoria Política, Questão Social e Políticas Públicas. Coordenadora: Laurinete Rodrigues da Silva.

GT 4: Fábrica de Software. Coordenador: Prof. Wender Antônio da Silva.

GT 5: Corpo, Mente e Subjetividade. Coordenadores: Marcos Alexandre Borges e Edgard Vinícius Cacho Zanette.

GT 6: NUPECEM – Núcleo de Pesquisa em Educação e Ensino de Ciências e Matemática. Coordenadora: Juliane Marques de Souza.

GT 7: Agroecologia. Coordenador: Plínio Henrique Oliveira Gomide

GT 8: Educação. Coordenador: Alessandra Peternella

GT 9: Ensino de Ciências. Coordenador: Ivanise Maria Rizzatti

GT 10: Segurança Pública. Coordenador: Renildo do Carmo Teixeira

GT 11: Gênero, subjetividades e deslocamentos. Coordenador: Raimunda Gomes da Silva

GT 12: O léxico e suas dimensões linguísticas. Coordenador: Maria do Socorro Melo Araújo

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Nietzsche e a morte do xadrez



Nietzsche e a morte do xadrez

A cientificidade do xadrez computadorizado nos mostrou o quanto somos limitados. Deep blue (a famosa e controversaa máquina de jogar xadrez da IBM), ele não venceu Kasparov.
O que Deep blue fez foi muito mais!
Sua aparição significou um momento de ruptura.
Após o controverso match “vencido pela máquina”, a ideia de que nós, seres humanos-limitados, seríamos os mestres da cientificidade, ela foi completamente derrubada.
A derrota de kasparov marcou de uma vez por todas a morte do xadrez como uma campo significativo controlado por nós humanos.

De fato, o xadrez não morreu, quem morreu foi o homem para o xadrez!

Isso porque há mais de duas décadas estamos mergulhados em máquinas que nos ensinam como jogar.
Mesmo monstros como Magnos Carlsen, quando acompanhamos suas partidas, como no último match contra Karjakin, com a análise contínua de “engines”, parece que os melhores do mundo eram tão “frágeis”, pois “erravam tanto”...segundo as análise maquinais...

Neste sentido, os computadores mudaram o xadrez para que ele saísse de românticas ideias de cientificidades humanas para adentrar em uma estática análise numérica.

As teorias clássicas, sempre importantes, elas são pautadas em conceitos e métodos pré-estabelecidos. De fato, elas são importantes e parecem orientar e conduzir jogadores para que alcancem até o Top 100 mundial. Porém, certamente não dão conta, por elas mesmas, de prepará-los para o Top 10.

Como “contadores”, a compartimentação do xadrez está criando outros campos significativos. Isso parece, talvez, uma espécie de perspectivismo totalmente novo, até porque o clássico foi sendo cooptado por esse novo âmbito experimental tão computadorizado.

Quanto ao tema, algo salutar é a mudança e a diminuição do tempo da reflexão.
As modalidades de xadrez relâmpago e xadrez rápido ganham terreno, e mestres como Nakamura fascinam a todos com um xadrez de alto nível técnico em um modo “fast”.
Nós morremos para aquele xadrez de partidas que duravam dias, de equipes que viravam madrugadas tomando vodka e calculando e memorizando lances.
Esta reversão dos valores do xadrez, de um xadrez que se tornou racional para as máquinas e irracional para os humanos, ela nos lança para um campo significativo novo.

De todo modo, sempre gostei de refletir sobre a natureza do xadrez.

Esta ruptura singular que implica em uma mudança de sentido jamais vista, ela pode ser pensada no xadrez a partir de uma analogia com a filosofia de Nietzsche.
Para quem inicia os estudos filosóficos, é difícil não se assustar com o pensamento crítico do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900).

Sua desconfiança dos valores morais e da razão ela mesma o levou a reprovar a metafísica e o cristianismo. Inclusive, em frases como: Deus está morto!? O filósofo mostrava o quanto o mundo ocidental perdeu significado.
Inclusive, que ideias como “a existência de Deus” não fariam sentido...

Se não existe verdades absolutas, estaríamos imersos em um perspectivismo-relativista.
Eu que não sou e não pretendo ser nietzschiano, prefiro meu bom e ultrapassado xadrez romântico (mais próximo de kasparov!) que aquele “horroroso” xadrez estranho de 
Deep blue...


imagem pública: https://pixabay.com/

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O sofista que habita nossa pele



Extirpar o sofista que habita nossa pele, ou brincar de sofista sendo filósofo - sem o ser?
Entre a mentira gozosa do sofista e a verdade seca do filósofo, o que preferir?
A opinião desinteressada é falha, mas é gostosa! ...
A verdade é majestosa, porém, imposta? ...
É bom roçar a mentira porque ela tem um sabor de pecado
Já a verdade, gosto não tem!

Pecado e chocolate ... coisas resistíveis?

***

Descartes explica cuidadosamente o quanto é difícil para nós desconstruir preconceitos.

A imagem do sofista é a de um falastrão, isto porque o sofista ama o relativismo.
Essa perspectiva que deprecia o sofista, de fato, foi construída historicamente a partir de filósofos importantes, como Platão.

Felizmente, ao longo do século XXI, os estudiosos de filosofia antiga mostraram o quanto estes sábios itinerantes foram originais e que esta imagem deles é um tremendo equívoco. Em tempos de retrocesso, crise e intolerância, é salutar valorizarmos tais pensadores que defendiam a autonomia e o pensamento crítico, mesmo que contrariando as normas vigentes.

Não intenciono defender a ausência de verdade ou uma pretensa superioridade dos sofistas sobre os filósofos, até porque não sou nietzschiano!

Mas como estou trabalhando introdução à Filosofia e ética, me sinto obrigado a pensar a sofistica segundo o seu devido valor.

Entre outros temas, gosto da história de Helena de Tróia, um caso interessantíssimo!
Desde os gregos antigos, sábios como Górgias, ironizam a moralidade e defendem a adúltera!

Segue abaixo, alguns tópicos que discutiremos em nossas aulas de introdução à Filosofia

Importância dos Sofistas:

*Mestres da sabedoria
*Colocaram o homem no centro da reflexão filosófica
*O pensamento e a argumentação, ambos, constituem um tema próprio de argumentação
* linguagem torna-se central
* Crítica aos valores tradicionais – através da valorização das opiniões em detrimento dos dogmas da cultura
* Os sofistas propunham ensinar a “arèté” (virtude), e cobravam por tais ensinamentos, o que siginificava, para eles, tornar os homens eficazes e habilidosos na arte de bem falar.

O relativismo dos sofistas é apresentado de um modo interessante em Górgias (485-380 ac)

Para ele “nada existe”; e mesmo se qualquer coisa existe, a gente não a pode conhecer; e mesmo que a possamos conhecer; não podemos exprimi-la!
Assim, com este esquema Gorgias acreditava acabar com a pretensão de conhecimentos objetivos, limitando tudo às opiniões

GÓRGIAS: ELOGIO DE HELENA - breves extratos/fins didáticos

(2) Cabe ao mesmo homem dizer corretamente o devido e refutar os que repreendem Helena, mulher acerca da qual veio a ser uníssono e  unânime tanto a crença dos que deram ouvidos aos poetas, quanto a fama do nome que, de desgraças, tornou-se memória.

(6) Pois, ou por determinação da Sorte e por deliberação dos deuses e por decreto da Necessidade fez o que fez, ou foi raptada à força, ou persuadida pelos discursos, ou surpreendida pelo amor.

(7) Se, porém, à força foi raptada e ilegalmente foi forçada e injustamente foi ultrajada, evidente que, por um lado, o que raptou, como ultrajou, cometeu injustiça; por outro lado, a que foi raptada, como foi ultrajada, foi desafortunada.

(14) [...] assim como alguns dos fármacos expulsam alguns humores do corpo e fazem cessar uns, a doença, outros, a vida, assim também dentre os discursos uns afligem, outros deleitam, outros atemorizam, outros conferem ousadia aos ouvintes, outros, por alguma má persuasão, drogam e enfeitiçam completamente a alma.

(19) Se, então, pelo corpo de Alexandre, o olho de Helena sentiu um ímpeto e transmitiu à alma o conflito do amor, que há nisso de espantoso?
(20) Como, então, considerar justa a reprimenda à Helena? Esta que, ou enamorada, ou persuadida pelo discurso, ou raptada à força, ou constrangida pela necessidade divina, fez o que fez? De todo modo escapa à acusação.
(21) Afastei com este discurso a infâmia de uma mulher, permaneci na regra que estabeleci no início do discurso; tentei dissipar a injustiça da reprimenda e a ignorância da opinião; quis escrever o discurso, por um lado, como um elogio de Helena, por outro lado, como um brinquedo.
Local de acesso: GÓRGIAS. Elogio de Helena. Tradução de Daniela Paulinelli. Belo Horizonte: Anágnosis, 2009. [Apresenta as traduções de textos gregos realizadas pelo grupo Anágnosis, da UFMG.] Disponível em: <http://anagnosisufmg.blogspot.com/2009/11/elogio-de-helena-gorgias.html>. Acesso em 06-04-2017

Observação: Aqui no blog não intencionamos apresentar textos densos e profundos, pois tentamos fazer isso em outros lugares. Por um lado, pecaremos por omissão e superficialidade, mas, por outro lado, deixamos  a normatização acadêmica para discutir de modo mais livre.

Imagem: https://pixabay.com/