- Sempre jogar e estudar o xadrez de forma concentrada, evitando distrações, como conversas, assistir filmes, etc.
- Aprenda as regras do xadrez, o movimento das peças e a anotação do jogo
- O xadrez não é um jogo de azar. Portanto, leve o jogo de xadrez a sério, pois, sem estudo, não há progresso.
- É necessário estudar o jogo como se fosse uma disciplina escolar - Tenha um caderno de anotações e utilize-o muito!
- Crie um círculo de amigos e jogue xadrez com frequência
- Evite se irritar com as derrotas e sempre tenha um comportamento amistoso com seus adversários
- Seu entendimento do jogo deve partir do simples ao complexo - Evite estudar livros de xadrez que você não está conseguindo entender. Procure, inicialmente, os Manuais e Clássicos do jogo
- Aprenda a teoria clássica do xadrez e somente depois estude as teorias mais complexas
- Insira o xadrez em sua rotina diária e faça com que sua família não pegue ódio do jogo
- Saiba qual é o seu nível, de forma que procure, sempre que possível, jogar com enxadristas mais fortes que você
- Em suas partidas, a cada jogada que for fazer, faça uma revisão geral das possibilidades, verificando se não há uma armadilha do adversário nos lances seguintes
- Sempre tenha um plano de jogo - É melhor ter um plano ruim que não ter nenhum!
- Estude as três fases do jogo de xadrez (Abertura/Meio-jogo/Finais) com a mesma dedicação
- Não fique decorando aberturas complexas e variantes extensas, procure entender o sentido das aberturas, os planos gerais e conceituais que orientam uma determinada estrutura inicial do jogo
- Se possível, invista em um bom computador e tenha acesso aos programas de estudos de xadrez, como Rybka e Fritz, etc.
- Estude e jogue xadrez nos sites da internet com seriedade
- Após jogar uma partida, pense sobre o que aconteceu no jogo: interprete suas partidas - Busque soluções diferentes e opções que não foram vistas
- Tenha paciência para progredir no jogo e não desanime - Em geral, demora muito para progredir no xadrez
- Crie planos de estudo, com metas e prazos a serem alcançados
- Seja feliz jogando xadrez, pois o jogo dos reis deve proporcionar prazer e realização pessoal
FILOCHESS trata de curiosidades, textos e discussões a partir da filosofia e do xadrez. Se você tem interesse em tais assuntos, acompanhe nossos posts e discussões.
domingo, 26 de junho de 2016
20 Conselhos para iniciar com sucesso os estudos de Xadrez
Receita Filochess para um domingo agradável
Receita do dia:
- Aconchego do lar
- Uma pitada de Filosofia/não muito!
- Partidas de Xadrez bem jogadas
- Um tanto de preguiça, pois é domingo...
- Companhia selecionada/ou um bocado de saudade
Resultado:
O dia não foi perdido!
sábado, 25 de junho de 2016
MasterChef e os limites da sofisticação
Fiquei surpreso quando os mestres do MasterChef, essa semana, pediram para os candidatos novatos fazerem ovos!
Os caras tremiam!
Eis as provas: 1) ovo frito; 2) ovo cozido; 3) ovo quebrado em uma panela com água.
Os nomes de tais pratos são sofisticados, mas acima temos o que eles realmente significam.
O trato apurado, a cultura, o refinamento, a valorização de nossas refeições como rituais e momentos de prazer, tudo isso é válido e essencial.
Até Jesus ficou feliz com ceias fartas e festas regadas a vinho!
Mas o excesso, sempre ele, traz consequências perniciosas...
Aprender línguas e culturas, e até sou fã da língua e da Filosofia francesa, mas assim como na comida, é necessário deixar de lado
o excesso de sofisticação.
Da alimentação ao pensar, da amizade ao sexo, a estilização passa por processos de complexidade que fabulam as coisas.
Os caras do MasterChef simplesmente entraram para ter sucesso como mestres da culinária e foram incapazes de fazer um ovo frito!
Senti tremenda vergonha por eles!
Errar é humano, mas cara, ovo frito?
Loucura!
Eu que felizmente tive a oportunidade de cursar a Universidade, vivendo ferrado e sem dinheiro por muitos anos, assim como meus amigos de república, todos nós nos tornamos mestres na arte de fazer ovos cozidos e fritos.
Chama atenção esse processo de sofisticação que enfraquece o ser humano, o tornando, muitas vezes, banal.
A luta contra uma estilização exacerbada, a criação de figuras ilusórias para satisfazer o mercado de uma elite sedenta e exigente em inventar divertimentos, tudo isso traz ao plano da Filosofia a necessidade de desconstruir supostas verdades.
A Filosofia também se tornou sofisticada e até incompreensível. Aparentemente ela está descolada do real.
Isso é um erro, pois, na verdade, poucas são tais Filosofias que pretendem ser inacessíveis ou restritas.
Em relação à sofisticação, certa vez tive oportunidade de comer em um restaurante chique francês. O peso na consciência foi o resultado, pois comi pouco de uma comida estranha, passei fome, e, além disso, por não saber usar tantos talheres fiquei constrangido na hora e fui embora com meu bolso vazio!
É claro que se rolar um jantar estiloso, sempre tem aquela foto para guardar e uma sensação de satisfação por termos acesso a algo caro, mas satisfação do paladar, esta não é garantida...
A prudência, desde Aristóteles, sempre é uma conveniente recomendação!
Mas como é difícil e chato ser prudente!
Um amigo meu que costuma dizer: essa história de cerveja gourmet é bobagem, bom mesmo é litrão!
De toda forma, particularmente eu e minha esposa somos adeptos das pratadas de arroz com feijão, acompanhadas de um bifão (estilo feito pela mãe) com um ovo (zoiudo) por cima. Se tiver salada, tudo bem, se não tiver, a barriga é generosa e não reclama de coisas gostosas e calóricas..."Pois, dizem alguns sábios, boca foi feita pra cumê"
Fico pensando as vezes o quanto fantasiamos, como sofisticamos coisas simples, e, assim, fingimos que elas são outras e deixamos de fazer o essencial.
Introdução à Filosofia: o que o Super-homem, Batman e as novelas da rede globo tem haver com a gente?
O culto de uma sobrehumanidade não surge filosoficamente apenas com o filósofo alemão Nietzsche (1844-1900).
Embora Nietzsche tenha uma filosofia muito interessante e complexa, e não trataremos de tal temática aqui, só queremos assinar que a ideia de que poderíamos superar nossa humanidade sempre esteve presente em outros aspectos.
Ir além do comum, não sofrer a ação do tempo, não ser um perdedor, lutar contra a injustiça e vencê-la...
Todo grande herói não é apenas um vencedor, mas é aquele que também faz sacrifícios e é capaz de administrar enormes responsabilidades.
Quanto mais poderes, maiores as responsabilidades!
A química das emoções, os enredos que fazem chorar e emocionar, a injustiça.
O sofrimento da humanidade, a ausência de punição, o sucesso dos corruptos, tudo isso exige que a ordem natural seja alterada ou suplementada por alguns seres capazes de restaurar a justiça, ou ao menos manter um possível equilíbrio.
Alguns, pouco avisados, inclusive interpretam o real associando que a superação do colapso da política brasileira atual ocorreria através de heróis como o juiz Sérgio Moro. Tremenda tolice...
Hitler e Stalin foram retratados como heróis, que fariam uma "limpeza" e purificariam seus países...
Tomemos cuidado com tais discursos e ideias, a noção de "sobrehumanidade" é algo complexo.
Quanto ao tema, fiquemos, por ora, com o que acontece no universo da mídia.
Entre o natural e o fantástico,
o universo dos quadrinhos se tornou uma cultura mundial.
Também é bom lembrar que todos os clichês dos romances populares, das novelas e dos quadrinhos, diferenças a parte, muitas vezes estão propondo soluções fantasiosas, geralmente pontuais, às políticas e contradições que operam no mundo.
O que faz que as novelas da rede globo, por exemplo, serem tão populares, assim como os desenhos de super-heróis, como batman e super-homem?
Reconhecimento! Nós nos reconhecemos neles!
Nos angustiamos, sofremos, compartilhamos emoções e sentimos as felicidades e problemas dos personagens como se fossem nossos!
Aqui no Brasil é uma loucura, na noite do último episódio das novelas da rede globo, ninguém trabalha!
Um outro caso interessante a discutirmos é o do super-homem. Por excessivamente perfeito que ele seja, sua fraqueza principal não é a criptonita, mas sim o julgamento moral.
O que é melhor para ele: salvar um prédio incendiado com centenas de crianças ou sua amada Lois Lane?
Afinal, o que é mais importante para ele: Louis Lane ou a humanidade?
Essa questão entre o particular e coletivo, entre o sacrifício do indivíduo pelo todo, tudo isso que é tão filosófico e é algo que está em nossa vida cotidiana, nos filmes, nas novelas, nos quadrinhos.
O que queremos dizer é que este elemento trágico sempre está envolvido, e parece insuperável.
Embora meio estranho e decepcionante em alguns aspectos, o encontro entre Batman e Super-homem, no filme Batman Vs Superman: A origem da Justiça, ele mostrou o quanto podemos ser traiçoeiros e invejosos!
O Batman, homem-morcego, antigo vigilante de Gotham que se torna um filantropo milionário, ele vem sendo mostrado como um pouco infeliz.
Nesta infelicidade de um ricaço que precisa se ocupar com algo interessante, ao perceber o quanto seu colega é poderoso, ele se prepara e com muita astúcia monta uma armadilha para liquidar o homem de aço!
Que super-herói é esse?
Podemos perceber que agora a luta não é mais definida entre o bem contra o mal.
No filme fica nítida a mudança de orientação, pois ambos parecem mais próximos de nós através de seus sentimentos e conflitos, e elementos como inveja, medo, ganância, etc, são mostrados neles tal qual estão em nós.
Entre tantas filosofias, interpretar o presente deve ser uma das principais!
Experimente assistir novelas e filmes a partir deste olhar mais filosófico, isso pode surpreender, pois o que parece algo prazeroso e normal, pode conter discursos, ideias e intenções mais profundas! Eis a sugestão.
Para quem se interessar sobre tais temas, nós lemos duas obras:
ECO, Umberto Eco. "Il superuomo di massa" - que na tradução que tivemos acesso ao francês fica "De superman au surhomme" (ECO, Éditions Grasse e Fasquelle, 1993).
E o popular:
Superman e a Filosofia: o que o Homem de Aço faria? Coord. William Irwin; Coletânea: Mark D. White. Tradução: João Barata. São Paulo: Madras, 2014.
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sexta-feira, 24 de junho de 2016
É possível entender racionalmente a loucura?
A razão é associada ao certo, ao evidente, ao claro e distinto, ao correto. Enquanto que a loucura geralmente é tratada como a falta de razão, o erro, ou aquilo que não pode ser administrado da mesma forma que o pensamento racional.
Para René Descartes (1596-1650), a loucura escapa à razão. Por outro lado, muitos filósofos céticos defendem que a loucura inviabilizaria qualquer noção de verdade absoluta.
Georges Bataille mostra o quanto o ser humano é descontínuo e solitário.
Para o autor, a quebra da razão, através da proibição, aconteceria no momento da transgressão e do erotismo. Criticando, pois, a razão, a passagem abaixo é interessante:
"A vida humana está exausta de servir de cabeça e de razão ao universo, na medida em que se torna essa cabeça e essa razão, na medida em que se torna necessária ao universo, ela aceita uma servidão. Se não é livre, a existência torna-se vazia ou neutra e, se é livre, ela é um jogo" (BATTAILLE, Acéphale I. Paris: Jean-Michel Place, 1995).
É notável o entendimento diferenciado que podemos tomar acerca da razão. A defesa da razão como positiva é contrastada por autores que defendem que a razão escraviza o homem, o tornando, na verdade, um "acéfalo" (sem cérebro!).
Diante da suposta oposição entre a razão e a loucura, a filosofia se preocupa em determinar o lugar de cada qual e saber se podem cooperar ou se são excludentes.
Para determinados filósofos a razão pode, desde sempre, estar enlouquecida, e a loucura seria justamente isso que escapando ao claro e distinto mostraria o quanto somos limitados, imperfeitos e que a racionalidade plena é uma ilusão.
Esta é a posição assumida, por exemplo, pelo falecido professor de filosofia Oswaldo Porchat. De nossa parte ensaiamos discutir a posição racional de Descartes contra a defesa cética da loucura, representada pela filosofia neopirrônica de Porchat.
Os céticos são aqueles que pelo uso da dúvida, colocam em xeque nossas pretensas verdades. O artifício da dúvida seria um filtro essencial para que possamos levar a sério nossos argumentos.
A dúvida opera como uma navalha posta de forma a ceifar todo argumento que apresente falhas ou inconsistências. Neste sentido, enfrentar a dúvida ou submetê-la sempre foram alternativas dos filósofos dogmáticos para assentarem suas teorias. Esse foi o caso, por exemplo, de Descartes, que ao usar o veneno da dúvida cética com o fim de assentar a mais inquebrantável verdade, acreditou ter superado em definitivo a tradição cética.
De sua parte, os céticos vem denunciando que Descartes e sua racionalidade jamais passaram seriamente pelos argumentos céticos, mais fazendo um ceticismo fingido que imergindo na dúvida.
Tratamos tais temas no livro que publicamos "Ceticismo e Subjetividade em Descartes" e em um artigo em que opomos a perspectiva cética e a de Descartes.
Para quem acha o tema interessante, abaixo segue o link para conhecer ou comprar nosso livro e também o link com acesso gratuito ao artigo completo que escrevemos sobre o tema:
Acima temos o link para conhecer/ou comprar o livro: "Ceticismo e Subjetividade em Descartes" - Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette/A venda pela editora CRV.
Abaixo segue o link do artigo:
http://issuu.com/edgard94/docs/zanette-e-revisitando-o-argumento-d/1
As imagens utilizadas são públicas e gratuitas, disponíveis no site: www.pixabay.com
Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette
quarta-feira, 22 de junho de 2016
Convergências e oposições entre o xadrez e a filosofia: o pensamento posto em questão
Jogos são para apaixonados, principalmente como instrumentos de prazer e diversão.
Já a ciência é para aqueles que trabalham arduamente e tendem à sistematização do conhecimento.
O xadrez e a filosofia são duas áreas do saber que se relacionam: a filosofia é abrangente e o xadrez manifesta filosofias!
Isto porque a “mãe Filosofia” propõe diversos olhares acerca de um mesmo objeto investigado, de modo que o “compreender” algo sempre remete a um horizonte reflexivo diversificado. Cabe lembrar que na história da Filosofia ocidental diversos filósofos manifestaram paixão pelo xadrez, ou mesmo propuseram pensá-lo filosoficamente.
O que é o caso, por exemplo, de Wittgenstein (1889-1951) e Deleuze (1925-1995), entre outros. Também podemos considerar, em certo sentido, que gênios do jogo e da teoria do xadrez podem ser considerados filósofos, na medida em que ao interpretar o xadrez segundo novos paradigmas, contribuíram em revolucionar a compreensão geral acerca desta fascinante ciência.
Outro ponto de convergência são as duras exigências para progredir tecnicamente. Assim como acontece com a Filosofia, sobretudo nos dias atuais, não basta possuir talento mediano para chegar ao sucesso no xadrez. Para alcançar bons resultados nestas áreas, bem ou mal, é necessário estudar muito! Porém, estudar remete a saber estudar, saber planejar o tempo e o material utilizado, saber selecionar objetivos a serem alcançados a partir de etapas preestabelecidas.
Concentração e rigor no cumprimento de um projeto de trabalho é essencial. Podemos lembrar o que afirma René Descartes (1596-1650) no Discurso do Método: “pois é insuficiente ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem” (DESCARTES, 2010, p. 63).
Considerando este espírito do método como horizonte pedagógico, milhares de livros de xadrez foram escritos sobre estratégias de aprendizagem, sobretudo para que enxadristas de níveis iniciante e intermediário alcançassem a maestria. Alguns livros chegam a anunciar fórmulas mágicas, como se houvesse receitas de bolo para se tornar um Grande Mestre. Por outro lado, na vida real, para aqueles que não conquistaram nenhuma titulação, muitas vezes alcançar a maestria parece ser um enigma ou até mesmo algo místico e irrealizável.
Talvez o momento da vida de um enxadrista em que ele se dedica com todas as suas forças a alcançar considerável progresso técnico e prático seja o mais difícil de todos. Isto por que após alcançar o título de Grande Mestre, o jogador pode cair em uma fase muito ruim, baixar seu Rating e não conseguir mais vencer jogadores fortes. Ainda assim, ele jamais deixará de ter o título de Grande Mestre e ser reconhecido como tal!!
E quanto ao jogador de clube, que sempre está a um passo da maestria mas não consegue subir definitivamente de nível, como culpá-lo por se sentir fracassado?
Caso o xadrez seja pensado segundo uma perspectiva positivista, alcançar a maestria é o centro da questão e um requisito fundamental. Por outro lado, ao desmistificarmos esta interpretação equivocada e valorizarmos as contribuições pedagógicas e as ações afirmativas que o xadrez desencadeia no âmbito da inclusão social, ser um mestre não é o resultado ou o fundamento da prática enxadrística.
O xadrez de alto nível jogado por mestres é um aprofundamento do xadrez jogado como hobby por milhares de pessoas no mundo inteiro. Estes dois mundos não existem, não há um dualismo imanente ao xadrez. Dissociar o xadrez como se houvesse um que seria referente à vida comum e um outro praticado apenas por mestres é criar antagonismos inexistentes e desnecessários.
Diante da “eterna pergunta que fazem todos os jogadores de xadrez: Como posso melhorar meu jogo?” (YERMOLINSKY, 2002), muitos ficam frustrados com o xadrez e param de jogar, seja por não progredir ou mesmo por baixar a força do seu jogo, não conseguindo mais retomar um nível já alcançado. Muito se tem discutido se o jogo de xadrez é uma arte, um jogo ou uma ciência.
Xadrez é a diversidade na unidade, e a paixão que move milhares de aficionados esbarra na dificuldade de compreender o jogo como uma ciência, assim como é difícil ao iniciante entender as façanhas dos gênios que ultrapassam as regras normais de aprendizagem. Daí, provém, naturalmente, ilusões e frustrações.
De nossa parte consideramos fundamental desmistificar o chavão de tratar o xadrez como um esporte automaticamente saudável. O xadrez pode ser saudável ou não. Uma boa analogia é a palavra “droga”, ou o “fármaco” para os gregos. Por mais que a frase a seguir pareça de autoajuda, não deixa de ser verdade que um mesmo objeto pode ser remédio ou veneno, tudo depende do seu uso. Não traz vantagens aos praticantes do jogo considerá-lo intocável, puro e perfeito, de forma que só traria benefícios às mentes e às vidas das pessoas. Ao contrário, cada um é completamente responsável em desenvolver o equilíbrio interior para que o xadrez seja uma atividade saudável. Isto porque xadrez é muito viciante.
É de conhecimento geral que alguns enxadristas chegam a ter problemas psicológicos, e, caso não alcancem a completa insanidade, ao menos vivem de forma bem estranha, considerando os padrões de comportamento socialmente aceitos. O que queremos enfatizar é que o xadrez não está desenraizado de nossa natureza, a qual pode tender ao vício ou a virtude, à doença ou à saúde. Como dizia o Filósofo Epicuro em um texto famoso, intitulado Carta a Meneceu ou Carta sobre a Felicidade, o objetivo da vida feliz é o prazer! No entanto, o prazer deve ser maximizado com base no cálculo da utilidade e do dano, pois muitas dores são preferíveis aos prazeres quando um prazer maior advém por termos suportado a dor por longo tempo.
A inquietação constante é fonte de dor, enquanto que o verdadeiro prazer é alcançado pela tranquilidade do espírito. Assim, nos remetendo a estas breves observações acerca do pensamento de Epicuro, talvez, tão importante quanto jogar bem xadrez seria o refletir sobre a nossa relação pessoal com este jogo. Seja considerando o bem que pode nos trazer, ou mesmo o mal que já pode estar nos fazendo.
Jogar xadrez deve ser uma atividade saudável! No entanto, não há como negar que entre as mais torturantes sensações que um enxadrista poderá vivenciar estão aquelas das derrotas avassaladoras. Sobretudo quando deixamos escapar uma grande oportunidade de conquistar uma boa titulação, ou um pódio em uma competição importante. Em relação a este tema, todo manual de xadrez que tenha um mínimo de qualidade assinala a importância de utilizar a derrota como uma estratégia de aperfeiçoamento. Analisar as próprias partidas, algo tão importante na formação de um bom enxadrista, nada mais é que retornar ao legado Socrático: “Conhece-te a ti mesmo!”
Etimologicamente dizendo, a palavra método significa um “caminho a ser seguido”. Segundo o modo profilático de tratar o xadrez, quanto mais exato e isento de subjetividade o método, mais sucesso o jogador é capaz de alcançar. Seguindo por metáforas, notemos que Sócrates propõe a liberdade do pensar para o conhecimento de si mesmo, ressaltando a individualidade humana. Para o filósofo grego o verdadeiro método não é aquele que arranca o indivíduo de sua natureza, mas sim o que torna os indivíduos capazes de manifestarem a espontaneidade de suas individualidades.
Para Sócrates, por exemplo, a filosofia e os professores jamais poderiam transmitir a verdade, mas no máximo ajudar os indivíduos a descobri-la sozinhos. De um modo geral, o método socrático é conhecido por três elementos que se complementam, a saber: a ironia, a dialética e a maiêutica.
A ironia socrática se valia de perguntas feitas ao interlocutor, no sentido de oportunamente estimular o abandono dos prejuízos e a descoberta (parto) da verdade interior. Partindo de uma curiosa postura de afirmar saber que nada sabia (Só sei que nada sei!), Sócrates desmascarava a ignorância dos falsos sábios. Para Sócrates a dialética é um instrumento da busca pela verdade, pela qual seria possível ultrapassar, a partir da contraposição de teses, as aparências. Por fim, a maiêutica, literalmente, é a arte da parteira, a qual Sócrates se espelhava, limitando-se a perguntar, de forma que o interlocutor e não o professor fosse o detentor da verdade.
A maior dificuldade em ensinar e aprender a jogar xadrez está na condenação imanente a máxima socrática.
Na introdução do famoso livro de Alex Yermolinsky, traduzido ao espanhol como El Camino hace el progresso em ajedrez (CF. YERMOLINSKY, 2002), o grande mestre relata sua passagem pela forte escola soviética e toda a frustração de anos se dedicando ao xadrez sem conseguir progressos significativos. O método criado por Yermolinsky para seu treinamento autodidata foi inspirado em conhecidos conselhos de dois grandes ex-campões mundiais de xadrez: Alekhine e Botvínik. Este método não é outro segredo que estudar as próprias partidas e comentá-las exaustivamente em análises caseiras! (CF. YERMOLINSKY, 2002).
Podemos aprender com os professores e livros de xadrez a teoria clássica, os princípios e as regras gerais que norteiam o jogo segundo uma perspectiva profilática. É possível ser muito bem iniciado no movimento das peças, tática, aberturas, meio-jogo, finais, etc. Porém, sem uma proposta de investigação pessoal, conforme aquela relatada por Yermolinsky, por exemplo, toda ajuda exterior tende a tornar-se estéril.
Ademais, o xadrez atual ultrapassou a “clareza e distinção” dos métodos infalíveis e padronizados para a busca de pretensas verdades absolutas. Nas últimas décadas importantes teóricos do xadrez como, por exemplo, John Num, John Watson, Mihai Suba, entre outros, assinalam o limite para o uso de métodos estáticos como ferramentas pedagógicas.
É este caminho límpido e fácil até a maestria que muitos livros de xadrez propõem conduzir o estudioso atento e rigoroso. Grande ilusão! É o que muito apropriadamente afirma Jonh Watson, parafraseando Suba:
A maioria dos livros sobre teoria moderna consideram que melhorar nosso jogo mediante o estudo da estratégia, implica alcançar um nível superior ao de um jogador que não há tido este estudo. Isso pode ser parcialmente certo, mas o advertiria que o dogma introduzido pode ter um efeito em detrimento de sua criatividade. Trate de ler estes livros com olho crítico, como se não acreditasse uma palavra do que dizem. Memorize variantes de aberturas, técnicas no final, combinações, ideias, inclusive partidas completas, caso possa, mas não regras e dogmas (WATSON, 2002, p. 293).
Não intenciono refutar de modo tão inapropriado a teoria clássica do xadrez. Tampouco os autores citados acima teriam tal pretensão. Mas como praticante do jogo, professor de xadrez e de filosofia, há um bom tempo venho percebendo que estudos densos e sistemáticos muitas vezes possuem menos eficácia que o exercício e absorção pessoal de novas ideias. Seja as que tomemos de empréstimo acompanhando os jogos dos grandes mestres, ou mesmo nas análises caseiras que devemos fazer em nossas anotações. A partir destes estudos já realizados, aí sim podemos complementá-los ao contrapor nossas ideias às sugestões que um bom engine nos indica.
É claro que aqueles que possuem condições financeiras podem sim ter o auxílio de um professor ou de um mestre. Todavia, muitos de nós, como foi o meu caso, aprendem a jogar de forma autodidata. Por ser um jogo que incita o autodidatismo, o xadrez possui uma característica interessante de inclusão social e superação de classes. Há uma frase que diz: todo grande profissional começa com um bom professor! Sim, o professor é uma nobre profissão, talvez a mais importante. No entanto, esta é uma máxima que não pode ser tomada como regra no xadrez. É incomensurável a importância do professor de xadrez, mas acredito que o nosso jogo possui um caráter peculiar de ser, em grande parte, autodidata. Com a internet e os engines, os livros e os métodos de treinamento deixam de ser o centro da investigação enxadrística e dividem sua importância com estas novas ferramentas e tecnologias.
Quando usamos a palavra “vocação” para nos referirmos ao xadrez e a filosofia, intencionamos enfatizar este caráter autodidata destas duas incríveis áreas do conhecimento, nas quais é possível ser o mestre de si mesmo. No xadrez, hoje é fundamental estudar e respeitar a tradição, passar pelos métodos de ensino e progredir. No entanto, podendo compará-la ao espírito socrático, considero apropriadas as considerações de Watson e Suba no sentido de mostrar a importância do olhar crítico em relação aos paradigmas dos métodos enxadrísticos.
O verdadeiro mestre não é aquele vence todos os seus adversários custe o que custar, seja chutando adversários por baixo da mesa, ou usando indevidamente celulares com programas de xadrez nos banheiros, mas é aquele homem comum que está satisfeito e feliz com seu pequeno xadrez do dia a dia.
Referências Bibliográficas
DESCARTES, René. Obras Escolhidas. (Org.). J. Guinsburg, Roberto Romano e Newton Cunha. Tradução: J. Guinsburg, Bento Prado Jr., et al. São Paulo: Perspectiva, 2010. (Textos; 24).
EPICURO. Antologia de Textos. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Coleção Os Pensadores)
_________. Carta a Meneceu. Tradução: Álvaro Lorencini e Enzo del Carratone. São Paulo: UNESP, 1997.
NUNN, John. Secrets of Pratical Chess. London: Gambit, 1998.
PLATÃO. A República. 2. ed. Tradução: Maria Helena da Rocha
Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.
_____. O Banquete. Tradução: Jorge Paleikat e João Cruz Costa.
São Paulo: Abril Cultural, 1972 (Coleção Os Pensadores).
SUBA, Mihai. Dynamic Chess Strategy. Pergamon, 1991.
WATSON, John. Los Secretos de la Estrategia moderna em ajedrez: Avances desde Ninzowitsch. Tradução: Juan Sebastian Morgado e Roberto Gabriel Alvez. London: Gambit, 2002.
YERMOLINSKY, Alex. El Camino hace el progresso em ajedrez. Tradução: Juan Sebastian Morgado e Roberto Gabriel Alvez. London: Gambit, 2002.
Observação: esta matéria é uma revisão completa de um artigo que publiquei na edição 8 da Revista de Xadrez Meio Jogo – sob a coordenação do amigo Rogério Santos - Árbitro da Fide.
Conheçam a Revista:
http://revistameiojogo.com.br
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Análise de Partida - Video Aula de Xadrez - Sacrifício Posicional- Parte IV - V
Parte Final desta série
Análise de Partida de Viktor Korchnoi trabalhando as noções de sacrifício material e sacrifício posicional - Partes IV e V
Parte IV
Link dos vídeos no nosso canal no Youtube:
Parte IV
https://youtu.be/yac-N6Wtlms
ParteV
https://youtu.be/a7Mlwjj4E60
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https://youtu.be/yac-N6Wtlms
ParteV
https://youtu.be/a7Mlwjj4E60
Abaixo segue a partida para reprodução e estudos
Kortschnoj,Viktor (2695) - Petrosian,Tigran V (2615) [D37]
Torneio de Candidatos qf4 Velden (5), 1980
1–0
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O Sacrifício Posicional - Video Aula de Xadrez - Análise de Partida de Viktor Korchnoi - Parte II - III
Acompanhem as análises das Video Aulas de Xadrez
Análise de Partida de Viktor Korchnoi trabalhando as noções de sacrifício material e sacrifício posicional
Link dos vídeos no nosso canal no Youtube:
Parte II
https://youtu.be/nyxsNHHko_8
Parte III
https://youtu.be/sO_mMGmZajQ
Parte II
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Parte III
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segunda-feira, 20 de junho de 2016
Sacrificar é preciso! Video Aula de Xadrez - Análise de Partida de Viktor Korchnoi - O sacrifício posicional - Parte I
No xadrez a análise das partidas de um Mestre é um dos caminhos apontados pelos grandes treinadores e jogadores como elemento central para o progresso na prática enxadrística.
No xadrez, assim como na vida, o sacrifício é um elemento determinante para um sucesso futuro. Antecipar, criar situações chave predizendo o futuro, essas são algumas das características do sacrifício no xadrez.
Significa que sacrificar trata de uma passagem, é um momento transitório em que precisamos nos abster de determinadas coisas para alcançar outras mais valiosas: no caso da vida, por exemplo, sacrificamos o tempo pelos estudos, deixamos de nos divertir para trabalhar.
No xadrez, sacrificamos material para conquistar mais material, ou para conquistarmos melhor posição, ou para alcançar o xeque-mate rapidamente.
Significa que sacrificar trata de uma passagem, é um momento transitório em que precisamos nos abster de determinadas coisas para alcançar outras mais valiosas: no caso da vida, por exemplo, sacrificamos o tempo pelos estudos, deixamos de nos divertir para trabalhar.
No xadrez, sacrificamos material para conquistar mais material, ou para conquistarmos melhor posição, ou para alcançar o xeque-mate rapidamente.
Acompanhem a primeira parte da Video Aula de Xadrez
Análise de Partida de Viktor Korchnoi trabalhando as noções de sacrifício material e sacrifício posicional
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Kortschnoj,Viktor (2695) - Petrosian,Tigran V (2615) [D37]
Torneio de Candidatos qf4 Velden (5), 1980
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sábado, 18 de junho de 2016
Filosofia para não filósofos: Eu sou eu mesmo?
Que é a subjetividade humana?
O que caracteriza nossa humanidade?
Desde o filósofo moderno René Descartes (1596-1650) nos acostumamos a acreditar que nossa essência é pensar. Sem pensar, sequer existiríamos!
Eu sou o que sou na medida estrita do pensar que sou alguma coisa.
Penso, logo sou/
Penso, logo existo
O eu (ego), o sujeito do pensar é identificado como um ser pensante e imaterial.
O dualismo cartesiano defende, em linhas gerais, que a alma não precisa do corpo para existir, pois são duas coisas em si mesmas separadas e distintas.
Filosofia controversa e fundamental.
Entre outras polêmicas, para Descartes os animais, por não possuir alma, seriam algo tal qual máquinas, como, por exemplo, um relógio!
Tratando de caracterizar a nossa humanidade, para o filósofo francês, ela teria âmbitos diferenciados:
1) alma - separada do corpo
2) Corpo - separado da alma
3) alma e corpo - unidos, formando o ser humano em sua inteireza.
Mais uma vez podemos perceber o quanto esta filosofia é radical, pois além de tratar animais como máquinas, também separa a existência da mente da existência do corpo!
Mas não sejamos injustos com Descartes sem maior aprofundamento.
Que é, efetivamente, para o filósofo, a subjetividade humana?
Sobre essa questão, vejamos a proposta do filósofo francês e a conseguinte crítica de Martin Heidegger (1889-1976), pensador alemão contemporâneo.
Eis a proposta do artigo que escrevi anos atrás sobre esse tema, o qual é acessível e didático.
Confira no link abaixo:
Eu sou o que sou na medida estrita do pensar que sou alguma coisa.
Penso, logo sou/
Penso, logo existo
O eu (ego), o sujeito do pensar é identificado como um ser pensante e imaterial.
O dualismo cartesiano defende, em linhas gerais, que a alma não precisa do corpo para existir, pois são duas coisas em si mesmas separadas e distintas.
Filosofia controversa e fundamental.
Entre outras polêmicas, para Descartes os animais, por não possuir alma, seriam algo tal qual máquinas, como, por exemplo, um relógio!
Tratando de caracterizar a nossa humanidade, para o filósofo francês, ela teria âmbitos diferenciados:
1) alma - separada do corpo
2) Corpo - separado da alma
3) alma e corpo - unidos, formando o ser humano em sua inteireza.
Mais uma vez podemos perceber o quanto esta filosofia é radical, pois além de tratar animais como máquinas, também separa a existência da mente da existência do corpo!
Mas não sejamos injustos com Descartes sem maior aprofundamento.
Que é, efetivamente, para o filósofo, a subjetividade humana?
Sobre essa questão, vejamos a proposta do filósofo francês e a conseguinte crítica de Martin Heidegger (1889-1976), pensador alemão contemporâneo.
Eis a proposta do artigo que escrevi anos atrás sobre esse tema, o qual é acessível e didático.
Confira no link abaixo:
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