terça-feira, 14 de junho de 2016

Brigamos pelos PALHAÇOS, mas o circo continua - A política como espetáculo


Se somos seres sociais, cadê o senso de responsabilidade?


As lógicas colaborativas pouco aparecem.

Em política, no modelo clássico brasileiro dos partidos, vemos estruturas hierárquicas, líderes a serem defendidos e bajulados, interesses corporativos, sejam eles empresariais, religiosos, etc.

Lugar de empresário é nas empresas, produzindo e gerando riquezas. Assim como o lugar de pastores e de padres é nas igrejas, e não no congresso. Mas os interesses se sobrepõem ao ideal, e o filosófico parece abstrato diante do que acontece na efetividade da vida social.

Em crise, o discurso preconceituoso ganha popularidade, e a insatisfação social e econômica é transformada em ódio contra raça, opção sexual, etc.
Erro categorial! Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!

Falta de dinheiro, crise política, opção religiosa, tudo isso não justifica a ninguém ser preconceituoso em um estado laico, como o nosso deveria ser.

Mas os oportunistas estão a solta, inclusive há quem se diga pré-candidato presidencial defendendo teses xenofóbicas. E por incrível que pareça, pessoas aderem a tais posições, não percebendo a banalidade e o perigo dessas adesões.

Ocorre que a ideia de fracasso tomou conta do país inteiro, e o hiato da corrupção atual mostrou que para além de direita e esquerda, o buraco é mais embaixo.

Esta ideia de fracasso é utilizada pelos oportunistas e faz ideologia. Muitos acreditam que o nosso país perdeu!!
E não foi apenas de 7 a 1 da Alemanha!

Isso é um absurdo, pois o Brasil é grande e seu povo é incrível.

Vejam nossas escolas que, sem recursos, até mesmo sem merenda (até porque alguns "espertos" costumam desviá-las...), mas nestas situações degradantes professores, pais e alunos, muitos se esforçam e lutam para uma educação de qualidade.

 

Embora os noticiários e os programas que mostram crânios rachados e bandidos pobres digam que nosso país é um lugar de vagabundos, isso é mentira, pois há muita gente boa e trabalhadora em nosso país. Conheço e convivo com milhares delas...

Também temos em quantidade pessoas vagabundas e sem caráter, o que é normal, pois em todo lugar é assim...

Mas nossa política, é verdade, essa sim está maculada. 

Ocorre que esquerda, direita e centro, brigando entre si para tomar o poder, todos se mostraram, nos últimos tempos, errados em maior ou menor grau:
 

Estamos brigando pelos palhaços, mas o circo continua sempre sob a mesma lógica!

 

O momento espetáculo, com nossa mídia fazendo da política um objeto de entretenimento, governantes corruptos e aparentemente desprovidos de mínimo senso ético, tudo isso faz que as pessoas deixem de acreditar nos governos.

A crise de governabilidade mostra claramente esse aspecto de luta pelo poder.

O bem comum, o "demos" (povo), não é medida comum desta atual luta política. 

O ideal grego de um homem autárquico, de um ser humano autônomo e que exerce sua cidadania plenamente na vida democrática, isso pouco tem haver com o que hoje observamos em nossa política.

A tomada do poder, a busca por exercer a atividade política por meio de grupos e seus respectivos interesses, isso mostra que a noção de autoridade política, tal qual nossa democracia representativa defende, ela está desagregada e desacreditada.

A ideia de líderes é falha, embora nós brasileiros sejamos fãs dos supostos heróis. O coletivo, a participação popular, os conselhos de base, isso nós não vemos nos veículos de comunicação.

Até alguns juízes, agora, se fingem de justiceiros, e atropelam todas as instâncias e divisões do poder, se lançando como figuras midiáticas. Isso é totalmente contrário ao papel de juiz, o qual deve aparecer pouco e julgar bem, pois a lei deveria falar por si e não através de marketing pessoal.

Na política como espetáculo, a inteligência coletiva, a problemática de exprimir o bem comum, e a luta por democratização real das instituições, nada disso está em pauta.

Na verdade não é desinteresse das pessoas, ou falta de intenção ou de inteligência. Há uma mecânica da vida social que retifica o sistema posto e nós temos dificuldade de entrar em contraste com o que é dado por essa plataforma sofisticada.

 Todos queremos um Brasil melhor, mas a luta entre os segmentos políticos, os conflitos de interesses, tudo isso lapida o nosso real para que sejamos complacentes com o que está acontecendo.

Ocorre que nós somos seres que vivemos sob a lógica das relações de troca. Que isso significa?

Na vida política, apoiamos A ou B, desde que sejamos favorecidos nisso ou naquilo. O famoso "dar para receber". Mas este apoio escuso é fundamental para a deturpação da lógica da política em vista da aniquilação do bem comum.

Nossos interesses se sobrepõe ao senso de justiça, somos interesseiros. Neste aspecto, o realismo político de Maquiavel nos esclarece que somos seres intencionais.

Essa intencionalidade de nossas ações justamente tende à satisfações orientadas, na maioria das vezes, para a ganância e o luxo.

Para derrubar o circo político e transformá-lo em um instrumento de uso coletivo, mais que a luta entre os segmentos, há que pensar seriamente este âmbito de nossa natureza que fica sob o amparo dos interesses.

É necessário, pois, pensar sobre isso...

Mas enquanto pensamos... na realidade do Brasil, em nosso legislativo, comitês de ética de câmaras desacreditadas dão as cartas ...em vista de um executivo frágil, aliado ao judiciário que possui suas próprias contradições cada vez mais evidentes, tudo isso leva as pessoas, sobretudo a classe média, a entrar em parafuso e banalizar nossa nação.

Este quadro político não é definitivo!

Não devemos aceitar passivamente da mídia este quadro de horror como irreversível, pois para além dos palhaços que norteiam nossa vida social, há muita gente trabalhadora e que fazem a diferença.




Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette

Todas as imagens utilizadas neste texto são gratuítas e disponíveis no site: https://pixabay.com

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Uma Filosofia para a vida - Uma breve introdução ao pensamento de Michel de Montaigne


MICHEL DE MONTAIGNE

 

Contra a falta de sentido e o erro da razão, a verdadeira Filosofia do "eu" se faz pela fé

 Entre o sim e o não, para Montaigne temos a vida!

 


 
Montaigne é um filósofo renascentista. Sua filosofia se confunde com uma vida agitada e cheia de desafios. O filósofo, antes de tudo, procurou escrever para si mesmo.

 Sua obra prima, os "Ensaios", são na verdade um diário em que ele anotava tudo o que lhe agradava. A partir das citações e comentários sobre outros filósofos, Montaigne foi pouco a pouco lapidando suas próprias reflexões e dando corpo a isto que chamamos de pensamento montaigniano.

 Costuma-se dizer em Filosofia que nós não pedimos para nascer, mas somos postos no mundo.

 E a vida humana acontece e estamos aqui. Temos nome, a maioria de nós tem família. Assim, somos pessoas, temos nomes e por estes nomes tratamos outros como pessoas, assim como nomeamos animais e coisas diversas, de forma a vivermos nos relacionando com tudo isso o que habita o nosso mundo circundante.

 

Eis o que bem explica o autor no prefácio dos Ensaios:

Eis aqui, leitor, um livro de boa-fé. Adverte-o ele de início que só o escrevi para mim mesmo, e alguns íntimos, sem me preocupar com o interesse que poderia ter para ti, nem pensar na posteridade. […] Se houvesse almejado os favores do mundo, ter-me-ia enfeitado e me apresentaria sob uma forma mais cuidada, de modo a produzir melhor efeito. Prefiro, porém, que me vejam na minha simplicidade natural, sem artifício de nenhuma espécie, porquanto é a mim mesmo que pinto. (MONTAIGNE, 1972, p. 12 – Prefácio)

 

            Montaigne representa na Filosofia o convite ao filosofar. Perguntar, questionar, provocar, ironizar, desdizer, refazer, contradizer, etc., são modos do filosofar, e fazer filosofia supõe essa abertura para pensar temas e questões de uma forma diferenciada. Isto porquê o filósofo francês questiona temas fundamentais da existência humana. Assim, é comum perguntarmos: Qual o sentido da vida? Por que precisamos seguir as convenções e normas sociais? etc.

             

            Para o filósofo devemos: não inventar um homem ideal, mas descrever o homem real, com seus vícios e virtudes. O problema é justamente saber como realizar essa descrição, pois, se tudo é movimento, abarcar o ser humano nesta situação de passagem é difícil, na medida em que a cada momento vivido permite o emergir de uma nova imagem. Notemos que o legado heraclitiano do devir como fundamento é seguido nesta abordagem do humano. Eis o que afirma o filósofo em relação ao tema:

[…] Não posso fixar o objeto que quero representar: move-se e tutubeia como sob efeito de uma embriaguez natural. Pinto-o como aparece em um dado instante, apreendo-o em suas transformações sucessivas, não de sete em sete anos, como diz o povo que mudam as coisas, mas dia por dia, minuto por minuto. (MONTAIGNE, 1972, p. 371 – Livro III, Capítulo II)

 

           Neste contexto, entre tantos temas abordados pelo filósofo, em sua interessante obra Ensaios, nela notamos um tema-chave que cerceia por todas essas indagações. Essa chave interpretativa é a busca incessante por decifrar uma questão já abordada filosoficamente por Sócrates:

Que sei eu?

            Quando o filósofo grego dizia ironicamente que “só sabia que nada sabia!”, esta forma de abordar o saber levava necessariamente a perguntar sobre o que nós seres humanos sabemos, se é que sabemos alguma coisa. A filosofia de Montaigne segue as pegadas dessa forma dialógica de discussão, de abertura ao questionamento de nossas pretensas verdades. O que sabemos? Como podemos ter certeza sobre algo? Que é essa coisa que nós mesmos somos? Como podemos ter uma identidade e ao mesmo tempo estarmos mudando continuamente o que somos?

            A consciência de nossa própria identidade é um tema fundamental para a filosofia moderna, e quando falamos sobre um “eu” (ego), estamos nos remetendo a esta história da noção de subjetividade que está presente em Montaigne e em Descartes. Diante de uma forma ensaística de escrita em primeira pessoal, tal qual algo que propõe um experimento de si mesmo, para Montaigne sempre precisamos reordenar e reinterpretar o quebra-cabeças de nossa própria identidade. Mas este quebra-cabeças não é linear, pois não há objeto fixo para representar, de forma que cada peça tem sua própria forma e muitas vezes não se encaixa bem nas outras. Podemos dizer, neste sentido, que a história humana é difusa, e neste titubeio o ser humano é complexo e controverso. Podemos notar facilmente que ora queremos uma coisa e logo em seguida queremos o contrário! Não é sem razão que Raul Seixas em sua Música “Metamorfose Ambulante” enfatiza esse caráter difuso, complexo e contraditório da identidade humana.

           
           Na filosofia montaigniana o combate ao dogmatismo se desdobra tal qual esse enfrentamento político e cultural. Contra o dogmatismo Montaigne se lança a conhecer e discutir profundamente as escolas e temas filosóficos que mais se destacavam. Entre outros, ateísmo, agnosticismo, ceticismo, epicurismo, estoicismo e cinismo são confrontados, relacionados, criticados e problematizados. Notemos, pois, que a questão da unidade do pensamento de Montaigne é um tema controverso. Ao que tudo indica, dificilmente poderíamos interpretar o filósofo de forma sistêmica tal qual fazemos com Descartes e Hegel, por exemplo.

            Esculpir a si mesmo e pensar por si mesmo são temas clássicos, e embora eles tivessem sido muito bem examinados por Nietzsche, é evidente que já eram defendidos no renascimento por Montaigne. A tolerância aparece, pois, para Montaigne, como proposta de suportar a laicização. Assim, devo aceitar a escolha do dogma moral e religioso de outrem que não é o mesmo que o meu, e preciso me manter tolerante e paciente diante daquilo que me é estranho. Suportar o outro é uma das importantes lições de Montaigne, inclusive em relação à heresia, pois, embora o fideísmo de Montaigne combatesse filosoficamente o ateu, seu pensamento se posta mais para o lado da laicidade que para extremismos religiosos.

            Esta arte de conhecer a si mesmo, este exercício de julgamento da experiência pessoal, ela é uma defesa do singular, e por esta a crítica irônica às convenções sociais, nas figuras das máscaras, essa posição justifica a tradição de intitular Montaigne como o “Sócrates Francês”. A postura do filósofo expressa um ideal de sinceridade, e esse exame de si mesmo exige que aceitemos e descrevamos nossos vícios e perversões. Se o exterior nem sempre é adequado, a crítica ao exterior é uma importante forma de preservar uma singularidade que não deve nos escapar, que é nossa.

Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette

Se quer ler mais sobre o assunto - confira o artigo abaixo:


 

Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette

 

domingo, 12 de junho de 2016

Quem joga xadrez não pensa

 
O Xadrez não é o jogo da estratégia
 
 
 
 
Nosso pensar funciona como uma armário. Vamos colocando coisas dentro e as organizando nas gavetas que estabelecemos arbitrariamente como certas. É difícil mudar as gavetas! Somos preguiçosos, e nossa mente, geralmente, só altera o que está dentro delas.

Somos chatos e repetitivos - Nossa natureza é assim
 
 
 
Tudo padronizamos, e precisamos criar lógica em todas as nossas ações. Vejam hoje, por exemplo, dia dos namorados! Todo mundo postando coisas parecidas nas redes sociais, se presenteando e dizendo coisas belas. Ir ao trabalho, cuidar do corpo, limpar o corpo e comer. E isso tudo é tão repetitivo e igual, e tudo tão maluco. As mulheres, por exemplo, são tão insanas que gastam fortunas arrancando os pelos, ou pintando partes do corpo, como cabelos e unhas.
 
E quando perdemos a lógica? Tudo cai por terra. Perder um parente querido ou ser abandonado pela pessoa amada, tudo isso nos arrasa. Muitos não conseguem sair da cama, de tanta tristeza.
 
Observem que a depressão é uma doença comum e a cada dia ganha mais e mais adeptos. Ora, nós lutamos contra a chatice da vida. Entre tantas coisas, é por isso que fazemos as loucuras e nos embriagamos. O dionisíaco, a embriaguez tem papel fundamental para que sejamos capazes de suportar a vida, pois a vida tem que ser alimentada. Se não cultivamos a vida, ela morre e nós também.
 
As piores idiotices que fazemos são aquelas em que sabemos o que devemos fazer, queremos fazer a coisa certa, mas ai aquele um por cento "fode tudo" e logo fazemos uma bela de uma cagada.
 
Entre o saber e o não saber, o xadrez não é o jogo da estratégia, porque há estratégia em tudo, inclusive quando fazemos besteiras.
 
A questão primordial que norteia a estratégia enxadrística é a criatividade em não deixar nossos padrões de pensamento dominar nosso jogo.
 
Por quê as crianças jogam tão bem o xadrez?
 
 
 
Por que elas estão, geralmente, com a mente menos padronizada, elas não se fecham nos esquemas como nós adultos. A fantasia, assistir desenho animado, brincar e acreditar em papai noel. Vejam, as crianças são menos mecânicas que nós adultos.
 
A criatividade em não jogar o óbvio, em arriscar, em adentrar o campo escorregadio do desconhecido, a criatividade no xadrez é peça mestra para o sucesso no jogo.
 
 
Estudamos os esquemas, fazemos plano de trabalho e organizamos o xadrez cientificamente. Mas tudo isso deve complementar a criatividade, essa última é o ponto nevrálgico do sucesso.
 
Basta lembrar de Kasparov e Fischer. A obsessão destes dois pela criatividade no jogo de xadrez chama atenção, pois ambos uniam o rigor do científico com uma explosão de criatividade. Magnus Carlsen, entre outros da atualidade, também demonstram claramente isso.
 
Pela minha experiência como praticante do jogo, embora não tenha dados de uma pesquisa empírica, mas imagino que, podemos chutar algo por volta de 80 por cento dos nossos lances são feitos de forma automática.
Que isso significa?
 
Ora, jogamos xadrez sem pensar!
 
Ou melhor, jogamos xadrez pensando de forma automática!
 
 
É quando desconfiamos do óbvio, quando não seguimos automaticamente nossa primeira intuição de como prosseguir, é pela capacidade em pensar o diferente, é assim que fazemos da estratégia a aliada da criatividade. Só a estratégia, por ela mesma, é frágil e incompleta.
 
Enquanto que o segredo do sucesso no mundo dos negócios é padronizar, no xadrez ocorre o contrário, nele é necessário rasgar com o óbvio, brincar com as coisas, fantasiar e arriscar.
 
O mundo onírico, o dadaísmo, a loucura. A busca pelo sentido diante do aparente não sentido, estes são elementos marcantes de uma luta a ser feita contra o domínio absoluto dos padrões.
 
 
 
 
Aparência não é essência, dizem os filósofos!
 
Alcançar a maestria no xadrez é ter condições de começar a entender o xadrez de um modo não trivial.
 
Pensar, ou usar o pensar melhor no jogo de xadrez, isso depende que aceitemos a interação entre o trivial e o espetacular.
 
Como você é jogando xadrez? Você padroniza seu jogo? Sempre repete aberturas e esquemas de jogo? Você abre espaço para pensar o não óbvio? Porquê seu jogo não melhora? O que você pode fazer para se concentrar melhor?
 
Estas são questões que todo enxadrista deve fazer para progredir. Mais uma vez, é difícil falar em xadrez sem que citemos Sócrates!
 
Sempre é, como não: Conhecer a si mesmo é fundamental. 
 
 
 
Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette

sábado, 11 de junho de 2016

Viktor Korchnoi - A morte de um campeão de xadrez!



Viktor Korchnoi (1931-2016) A morte de um campeão de xadrez
 

Dizem que saber perder é fundamental, mas nunca conheci um bom perdedor!


Assim, esse vice-campeão mundial de xadrez deixa a vida como um péssimo perdedor, e acho que deve ser assim....rsrsrs
 

Faleceu a pouco dias o enxadrista russo  Viktor Korchnoi. Participante e vencedor de diversas competições, ao desafiar Karpov ao título mundial perdeu por duas vezes (1978 e 1981). Cabe ressaltar que tais derrotas não ofuscaram o respeito e admiração da comunidade enxadrística por este grande campeão.

Korchnoi acusou diversas vezes a URSS de favorecer Karpov nos referidos encontros, inclusive com perseguições e manobras que favoreceriam a Karpov. Jamais aceitou tais derrotas diante do suposto favorecimento da equipe da URRS. Controvérsia a parte, além de vice-campeão mundial de xadrez, assombrou a todos com seu xadrez de alto nível jogando na "terceira idade". Essa figura simpática tornou-se, dessa forma, além de enxadrista, uma espécie de embaixador do xadrez e sensação mundial, representante da experiência.

Gosto do xadrez, mais que todos os outros jogos, por coisas como vemos retratada abaixo. Na foto, simplesmente dois gênios se encontrando - Dois prodígios e campeões. Neste âmbito, a universalidade e democratização do xadrez parece superar o tempo...


 
Como enxadrista, o estilo versátil de Korchnoi brindou o mundo com partidas combativas, mantendo um interessante equilíbrio entre o posicional e o tático.




 
Entre tantas belas partidas, escolhi uma contra outro grande campeão, o ex-campeão mundial de xadrez Tigran Petrosian. Esta partida remete à transição de um jogo posicional para uma posição complexa com sacrifício de qualidade (sacrifício de qualidade - torre por peça menor) por parte de Petrosian. Enquanto analiso esta partida e algumas outras, preparando vídeos a serem postados, segue esta para inicial apreciação de todos. Assim, ao terem um contato preliminar e analisarem a partida sozinhos, poderão entende-la melhor diante do vídeo que postarei, pois terão melhores condições de comentar, criticar, etc.
 
 
Kortschnoj,Viktor (2695) - Petrosian,Tigran V (2615) [D37]
 
Torneio de Candidatos qf4 Velden (5), 1980
 1.c4 e6 2.Nc3 d5 3.d4 Nf6 4.Nf3 Be7 5.Bf4 0–0 6.e3 b6 7.cxd5 exd5 8.Bd3 Bb7 9.h3 c5 10.0–0 Nbd7 11.Qe2 c4 12.Bc2 a6 13.Rad1 b5 14.a3 Re8 15.Ne5 Nf8 16.Bh2 Qb6 17.f3 a5 18.Kh1 b4 19.Na4 Qb5 20.Ra1 N6d7 21.Nxd7 Nxd7 22.e4 Nf8 23.Bg1 Bc6 24.Rfe1 Rab8 25.axb4 axb4 26.b3 c3 27.Bd3 Qb7 28.Ba6 Qd7 29.Bh2 dxe4 30.fxe4 Qxd4 31.Rad1 Qa7 32.Bxb8 Rxb8 33.Bc4 Be8 34.Rf1 Bg5 35.Rd5 Qe7 36.Nc5 g6 37.Qf2 Bh6 38.e5 Bg7 39.Ne4 Bxe5 40.Re1 Kg7 41.Nd6 Bxd6 42.Rxe7 Bxe7 43.Rd1 Bf6 44.Rf1 Nd7 45.g4 Rc8 46.Bb5 1–0

 

Filosofar na Amazônia: uma experiência dionisíaca - Parte I

Filosofar na Amazônia: uma experiência dionisíaca - Parte I
 
 
Para mim a imagem da Filosofia não é aquela do pensador de Rodin, mas sim a do garimpeiro!
O pensador pensa, mas onde ele está?
 
 
Já o garimpeiro, esse sim, ele está a batalhar o mundo!
 
 
A imagem do garimpeiro é uma das máscaras da região amazônica. Máscaras são locais simbólicos, são apreensões de sentido que criamos. Somos seres criadores, amantes das máscaras.
 
O garimpeiro, geralmente, é um homem que sai de uma terra amada em busca de sucesso, se arriscando em terras longínquas e inóspitas. Sucesso e riqueza, ele quer o que todos queremos...
 
É errada a ideia de considerar o garimpeiro mal intencionado. Muitas vezes ele não é pessoa ruim, ao contrário, pode ser uma pessoa determinada, inteligente e gentil. Simplesmente ele soube do potencial de um lugar, e vai para lá explorá-lo. Nós não exploramos os animais, a natureza e uns aos outros?
 
Mas o garimpeiro chega ao lugar, e se somos cidadãos do mundo, como pensavam os gregos helênicos, o esforço desse homem por chegar "ali", se instalar, se acostumar e ser feliz, parece facilitado diante do inusitado amor que encontra por uma terra tão nova.
 
O salto no escuro, a escolha intuitiva de se lançar a viver por uma decisão tão injustificada. O garimpeiro é feliz, pois preparado para a selva, preparado para o desconforto, nela, ao contrário, encontra o mais gozoso acolhimento. 
 
Então, de explorador a explorado, o garimpeiro fica por ali e é sugado por essa mina, pois ele e ela são um só quando, de uma outra metáfora, como aquela do desencontro de duas águas heterogêneas, há a explosão da beleza estética mais incrível que poderíamos ver: nada mais nada menos que o encontro das águas!
 
 
 
 
 
Ficar ali, ser sugado pelo lugar, e oscilar entre continuar a alcançar riquezas ou cuidar deste mesmo lugar a ser explorado. Esta é a controvérsia que circunda todo aquele que se lança ao mar de dúvidas e incertezas quando vai viver em um lugar novo.
Temos sempre a intenção de fazer do mundo nosso pátio, mas ao tentar brincar, usar este mundo, somos, por vezes, sugados e transformados por esta atmosfera tão favorável à felicidade.
 
Filosofar na Amazônia é algo como esta alusão ao garimpeiro e ao encontro das águas
 
Nós, filósofos preparados pela tradição grega/europeia, tão acostumados às leis e contradições do capital, nós chegamos na Amazônia tal qual o salto no escuro de todo aquele que começa a filosofar.
 
Hipocrisia a parte, temos sim, em um primeiro momento, intenção de fazer riqueza e retornar para um lugar que acreditávamos ser nosso. Mas... eis o tempo e seus ventos! A floresta é traiçoeira e nela tudo pode acontecer. Mas ela é assim, traiçoeira, para os desavisados, para os que nela não sabe viver.
 
O verdadeiro adjetivo da floresta é o acolhimento.
 
Filosofar na Amazônia não é fazer antropologia filosófica a partir de conceitos e vivências dos indígenas, pois nesta área, eles são um mundo e nós somos outro.
 
Filosofar na Amazônia é mais, nos parece, ser arrebatado por impulso criador e acolhedor. Ali se estabelece uma terceira categoria entre o ser/não ser, é mais como o encontro das águas, pois o ser é e continua sendo, e um não ser que não se oculta, toca o ser e fica por ali, ambos se acomodando tão bem que na disputa de um com o outro, um rio se faz e fica - "ali".
 
 
 
 
 
O encontro das águas não está para a lógica e não está posto pela dicotomia ser/não-ser, mas é um "ali".
 
Neste "ali", na coabitação de uma autonomia para além do ser e do não-ser, fazer mundo é a criação originária e  arrebatadora de fazer o "ali". O "ali" é um lugar de morada do controverso, de um impulso que faz mundo, faz sentido, e o estranho se acomoda tão bem que é impossível que entre o ser/não-ser, não aceitemos o "ali".
 
Local de morada, local de acolhimento, sua esfera de sentido leva o grego/europeu a filosofar. Filosofando, ele está a pensar coisas aparentemente banais, pelo menos segundo os critérios que norteiam nossas carreiras acadêmicas.
 
 Que é o boto? Que golfinho é esse que se faz criança e brinca com o mundo e chama o usurpador a dançar com ele nas águas da Amazônia?
 
 
 
 
 
Ora, filosofar para além do salto alto é possível!!!
 
Entre teses de doutorado e uma infinidade de conceitos remastigados, praia nossa tão amada e confortável, ao filosofar na Amazônia somos assim, sugados para o "ali".
 
Mas efetivamente, aceitemos o fato que o filosofar confortável e o encontro com o "ali" é aceitável, e, assim, a dicotomia se desfaz tão logo pensemos que o filosofar é universal.
 
A filosofia vivida sob a esfera da Amazônia é pensada por nós como aquela que remete ao "ali".
 
O "ali" é tomado com um acolhimento do explorador sendo vivido pelo encontro das águas. Entre o ser/não-ser, há, pois, o "ali".
 
As categorias filosóficas clássicas clamam pela ordem e clareza das razões. Somos filhos do método, Descartes é nosso pai. Mas como bons filhos, seguimos o preceito de Descartes e nos lançamos ao mundo, como viajantes em busca por quebrar nossos preconceitos.
 

Mas isso é estranho, pois quando saímos em viagem queremos algo, ainda que não saibamos bem o que queremos.
 
Diante de um mundo pós-cartesiano, se pensamos o mundo como nosso lugar de consciência, na Amazônia não é por esta lógica que nos mantemos no "ali". Pensar o capital, pensar a lógica do mundo capitalista, pensar em como não destruir a natureza por nossas regras de convivência tão marcadas pela ganância e pelo luxo, este não é um problema da Amazônia, estes são problemas nossos!
 
Na floresta, nós que estamos no meio dela e só a conhecemos pelo acolhimento de sua esfera social, ela é uma inspiração, pois quem realmente a vive são os indígenas originários e os ribeirinhos, que "ali" estão e nos recebem bem, embora saibam que temos um âmbito de garimpo. Mas o garimpo não é ruim, ou totalmente ruim, como dito anteriormente, o garimpeiro quer o que todos almejam, a riqueza. Mas neste encontro com as águas do rio branco, na figura singular do garimpeiro, nós somos ele e bebemos esta água e encontramos um outro acolhimento.
 
Terra de acolhimento, local dionisíaco. Certamente deus baco, se era grego não sei, mas certamente está ali na Amazônia brincando de fazer "alis". A embriaguez está tão presente que basta uma pisada na floresta, ou um passeio turístico pelas águas do rio, que este sujeito/cognoscente não sabe de nada, se é que sabia alguma coisa!
 
A destruição da floresta, tão defendida por nós ocidentais que queremos o dinheiro e o luxo, ela é permitida justamente porque há tanto acolhimento que ela se entrega inteira para nós! Sua defesa é simplesmente seu acolhimento, e seu acolhimento é justamente sua fraqueza, pois chegamos nela e podemos fazer o que queremos com ela. E podemos?
 
Há imagens que se expõem mas não se explicam. É, pois, no desencontro tão agradável e acolhedor do encontro das águas, por exemplo, que temos na floresta esta singular abertura de "alis". O lugar comum de um pertencimento singular, tal que a noção de abertura de sentido/mundo não pode ser aquela tão bem explicitada por Heidegger. O "dasein", aqui na Amazônia, não abre mundo, pois, ao chegar e estar defronte ao "ali", ele é subsumido.
 
Filosofar na Amazônia é algo assim, é como ler Descartes, Marx ou Heidegger e pensar sob outras esferas, sentindo, pois, que o filosofar é possível para além da cidade.
 
Aristóteles estava... certamente ele estava errado!
 
Filosofar na floresta é possível, ela está aqui, mas nós estamos nela?
 
Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Filosofia para não filósofos: uma introdução - Parte I



Filosofia para não filósofos: uma introdução - Parte I

Para quê serve a Filosofia?

 
 




Ao defender a utilidade da Filosofia, combatendo a prepotência e os vícios dos políticos de sua época, o filósofo Sócrates (470-399 ac.) foi morto e obrigado a tomar cicuta (veneno). 

A morte de Sócrates representa algo da morte do saber, diante do poder e capacidade dos corruptos em manipular a sociedade. É nítido que a relação entre o saber e o poder é antagônica. Nos dias atuais, por exemplo, o maior inimigo do saber é a ganância. O útil é sinônimo de dinheiro, e tudo o que não gera renda é menosprezado ou ridicularizado. 

As "boas profissões" são aquelas que geram dinheiro e os "tops" da sociedade promovem a cultura da ostentação. Como contraponto, infelizmente, boa parte de nossa juventude aceita passivamente e defende essa cultura. Na atualidade da mídia brasileira, claramente políticos e personalidades preconceituosas são considerados heróis, e fazem sucesso ao promoverem uma legião de idiotas como seus fiéis seguidores.



 
A Filosofia, talvez, nos ajude a combater essa propensão atual  de defender a idiotice como fundamento existencial. Não que defendamos uma postura austera e radical.  Somos seres do nosso tempo, e em uma festa em que toca um funk ostentação, é difícil não cair na dança!

Somos seres sociais e é chato ficar reclamando de tudo o tempo todo e não viver. Se a cultura da ostentação é um problema, também não é o caso de nos afastarmos do mundo, sermos chatos e nada fazer. A alienação do mundo e do corpo social também é uma alienação. O mesmo podemos dizer em relação às redes sociais, as quais podem ser instrumento de entretenimento e de conhecimento, mas também podem ser instrumentos de ódio, de preconceito e de burrice intelectual. Em todos estes casos, a busca pelo bom senso, pela mediania entre entender o mundo e vivê-lo, é fundamental.






Se estudar não é chato, mas chato é ser burro! Que não sejamos prepotentes aos nossos próprios olhos, ou totais ignorantes do mundo e da vida!





  
Precisamos estabelecer um equilíbrio entre nossas escolhas mediado por outros critérios que a ganância. Sabemos que o prepotente defende que tudo o que não gera riqueza, status e poder deve ser ridicularizado.

O mundo da ridicularização do saber possui como marca a intolerância. Há os hipócritas, os quais nunca trabalharam na vida, nunca souberam o que é enfrentar uma enxada no sol ou ter a barriga corroendo de fome, e por desconhecerem a falta de dinheiro para pagar a merenda ou para comprar entradas em festas, sempre defendem seus interesses de classe dizendo que quem é pobre é vagabundo porque não quer ou porque não soube trabalhar com sucesso.

Com uma mídia viciada, aliada à uma ordem política corrupta, o país vive atualmente a escancarada enxurrada de manobras para livrarem-se todos da justiça. E nossa justiça no Brasil, refém de interesses escusos, mostra sua fragilidade e pouca confiabilidade.

É por isso que se a Filosofia tem alguma utilidade, só a conhece quem estudou, por pouco que seja. Portanto, em uma sociedade da ostentação, não julgue a Filosofia como inútil sem antes procurar saber o que é a Filosofia. Neste caso, toda introdução à Filosofia é, pois, uma mentira, na medida em que introduzir o filosofar, sem filosofar, é impossível. Por outro lado, iniciar-se na Filosofia é fundamental, e, como tal, precisamos de ajuda, pois, quando o mestre é bem sucedido, o resultado geralmente é fantástico com o aluno.

As abordagens sobre a introdução à Filosofia podem ser diversas. Por exemplo, temos a abordagem histórica, a qual pensa o filosofar como um processo, e a partir da história das ideias e dos filósofos, segundo a historicidade à qual eles estariam lançados, delimita correntes filosóficas e suas respectivas perguntas, ideias e temas fundamentais. Outra abordagem importante é a temática, dividindo em temas a própria amplitude da Filosofia, de forma que teríamos a ética, a metafísica, a estética, a epistemologia, etc. Nesta abordagem, o ponto nevrálgico da abordagem são os temas. Podemos assinalar uma outra, que seria o Filosofar a partir de questões. Por exemplo, o que é a verdade? A partir de questões como esta, o estudioso da Filosofia ou filósofo aborda o tema e aprofunda seus questionamentos. 

Enfim, existem outras abordagens que poderiam ser citadas. De um modo ou de outro, queremos assinalar a importância deste salto no escuro, desta escolha por abraçar algo desconhecido, e só então, a partir deste encontro inusitado com o saber, pode surgir um encontro fortuito (o Filósofo: o amor pela sabedoria!), ou um desencontro justificado (o não Filósofo que filosofou: o desamor pela Filosofia – justificado pela própria experiência filosófica!)

Por isso, no mundo da "não Filosofia"
 Filosofar é preciso! 









Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette