segunda-feira, 20 de junho de 2016

Sacrificar é preciso! Video Aula de Xadrez - Análise de Partida de Viktor Korchnoi - O sacrifício posicional - Parte I


 
 
No xadrez a análise das partidas de um Mestre é um dos caminhos apontados pelos grandes treinadores e jogadores como elemento central para o progresso na prática enxadrística.
 
 
No xadrez, assim como na vida, o sacrifício é um elemento determinante para um sucesso futuro. Antecipar, criar situações chave predizendo o futuro, essas são algumas das características do sacrifício no xadrez.

Significa que sacrificar trata de uma passagem, é um momento transitório em que precisamos nos abster de determinadas coisas para alcançar outras mais valiosas: no caso da vida, por exemplo, sacrificamos o tempo pelos estudos, deixamos de nos divertir para trabalhar.

No xadrez, sacrificamos material para conquistar mais material, ou para conquistarmos melhor posição, ou para alcançar o xeque-mate rapidamente.
 
 
Acompanhem a primeira parte da Video Aula de Xadrez
 
Análise de Partida de Viktor Korchnoi trabalhando as noções de sacrifício material e sacrifício posicional
 
 
 
Link do vídeo no nosso canal no Youtube:
 
 
Abaixo segue a partida para reprodução e estudos
 






Kortschnoj,Viktor (2695) - Petrosian,Tigran V (2615) [D37]
 

Torneio de Candidatos qf4 Velden (5), 1980

 1.c4 e6 2.Nc3 d5 3.d4 Nf6 4.Nf3 Be7 5.Bf4 0–0 6.e3 b6 7.cxd5 exd5 8.Bd3 Bb7 9.h3 c5 10.0–0 Nbd7 11.Qe2 c4 12.Bc2 a6 13.Rad1 b5 14.a3 Re8 15.Ne5 Nf8 16.Bh2 Qb6 17.f3 a5 18.Kh1 b4 19.Na4 Qb5 20.Ra1 N6d7 21.Nxd7 Nxd7 22.e4 Nf8 23.Bg1 Bc6 24.Rfe1 Rab8 25.axb4 axb4 26.b3 c3 27.Bd3 Qb7 28.Ba6 Qd7 29.Bh2 dxe4 30.fxe4 Qxd4 31.Rad1 Qa7 32.Bxb8 Rxb8 33.Bc4 Be8 34.Rf1 Bg5 35.Rd5 Qe7 36.Nc5 g6 37.Qf2 Bh6 38.e5 Bg7 39.Ne4 Bxe5 40.Re1 Kg7 41.Nd6 Bxd6 42.Rxe7 Bxe7 43.Rd1 Bf6 44.Rf1 Nd7 45.g4 Rc8 46.Bb5
1–0



O vídeo é de nossa autoria e não deve ser comercializado ou utilizado para fins que não sejam pedagógicos.

sábado, 18 de junho de 2016

Filosofia para não filósofos: Eu sou eu mesmo?

 
 Que é a subjetividade humana?
 
O que caracteriza nossa humanidade?

Desde o filósofo moderno René Descartes (1596-1650) nos acostumamos a acreditar que  nossa essência é pensar. Sem pensar, sequer existiríamos!

Eu sou o que sou na medida estrita do pensar que sou alguma coisa.

Penso, logo sou/
Penso, logo existo

O eu (ego), o sujeito do pensar é identificado como um ser pensante e imaterial.

O dualismo cartesiano defende, em linhas gerais, que a alma não precisa do corpo para existir, pois são duas coisas em si mesmas separadas e distintas.

Filosofia controversa e fundamental.

Entre outras polêmicas, para Descartes os animais, por não possuir alma, seriam algo tal qual máquinas, como, por exemplo, um relógio!

Tratando de caracterizar a nossa humanidade, para o filósofo francês, ela teria âmbitos diferenciados:

1) alma - separada do corpo

2) Corpo - separado da alma

3) alma e corpo - unidos, formando o ser humano em sua inteireza.

Mais uma vez podemos perceber o quanto esta filosofia é radical, pois além de tratar animais como máquinas, também separa a existência da mente da existência do corpo!

Mas não sejamos injustos com Descartes sem maior aprofundamento.

Que é, efetivamente, para o filósofo, a subjetividade humana?

Sobre essa questão, vejamos a proposta do filósofo francês e a conseguinte crítica de Martin Heidegger (1889-1976), pensador alemão contemporâneo.

Eis a proposta do artigo que escrevi anos atrás sobre esse tema, o qual é acessível e didático.

Confira no link abaixo:
 


Dúvidas, correções, debates e provocações são bem vindas!! E devem ser postadas no Blog.

Todas as imagens usadas neste artigo, sem citações, são públicas e disponíveis a serem baixadas no site: www.pixabay.com

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O peão é o mundo




Philidor (1726-1795) era um enxadrista tão superior aos demais que geralmente, para a partida ser equilibrada, precisava dar alguma vantagem inicial ao adversário.
 
Talvez, essa superioridade era decorrente de sua compreensão avançada do jogo, da importância do peão para a estruturação do jogo em sua amplitude.
 
Diz que sua é a frase:  Les pions sont l'âme des échecs/ Os peões são a alma do xadrez
 
 
Philidor jogando xadrez às Cegas - Autor desconhecido
www.blindfoldchess.net/introduction/
 
 
Podemos pensar, com Philidor, que no mundo do tabuleiro, quem faz mundo não é o rei, é o peão!
 
O modo de considerar a importância do peão para o jogo de xadrez é o que distingue o xadrez antigo do moderno.
 
Compreender filosoficamente essa importância, interpretando o jogo de xadrez de forma ampla e não preconceituosa deu a Philidor as condições para ser considerado um dos mestres mais importantes para a história do jogo.
 
Enquanto preparamos análises de partidas e vídeos para discutirmos no blog, deixo aqui sugestivamente uma reflexão poética a partir da frase provocadora de Philidor.
 
 
O peão é o mundo

Feliz é o peão

Só anda para a frente

Valente

Não dá passo atrás

Enquanto Cavalos voam

Bispos, Torres e Rainhas lutam

E o Rei sempre em perigo

Destemido

Xeque-Mate não dá

Mas o peão altivo

Sempre avante

sujeito infante

criança ele é

Do tabuleiro e do mundo

De todo o absurdo

O peão é o que é

Simples assim

Peão
 
 
 
Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette
 
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quarta-feira, 15 de junho de 2016

Xadrez: O jogo da trapaça


 

Vídeo sobre o tema em nosso canal no Youtube: https://youtu.be/KectUV-LBKI
 
Introdução sobre uma visão filosófica

 da ética no xadrez

 

Dizem alguns que o xadrez é o jogo do combate

 Imagem metafórica da guerra:  matar ou morrer, dar o xeque-mate é fundamental!
 

 Quando temos uma visão do xadrez como guerra, podemos sim pensá-lo a partir das regras da guerra, até porque toda guerra tem regras, ainda que não sejam éticas.
 
 

Na guerra, muitas vezes, ocorre uma diferença de forças entre os adversários, quando um dos lados possui mais recursos, mais armas, mais soldados, etc.

Mas mesmo na guerra, a inferioridade não é determinante, pois quem diria que o Vietnã superaria o EUA anos atrás?


No xadrez ocorre que a posição inicial é razoavelmente equilibrada e a pequena vantagem dada pelas brancas pelo seu lance inicial acaba, na prática, influenciando algo, mas não determinando o resultado do jogo.

 Até existem enxadristas que conseguem melhores resultados com peças negras e preferem jogar com elas que com as brancas.

 A “ética” (grego ethikós) trata dos costumes, no sentido de apresentar regras ou princípios que orientem a escolha acertada. Se remetendo às normas das escolhas humanas, saber agir entre o bem e o mal faz da ética uma norma para a convivência social.

 
Se o xadrez é o jogo da guerra, como conciliar a luta pela sobrevivência, a busca incessante e irrestrita pela vitória com a convivência justa e harmoniosa?

 
Sendo repetitivo: jogando xadrez só conheci péssimos perdedores!

 A ética parece secundária, ou um discurso vazio, quando observamos a prática enxadrística tal qual ela é.

 
Os enxadristas, muitos deles, são mal-humorados, mal-educados, mentirosos, pão duros, ferrados, astuciosos e, quando podem, muitas vezes até roubam para vencer a todo custo.

 O caso mais típico é aquele em que um enxadrista toca na peça e se nega a jogá-la. Quando isso acontece, a confusão é tremenda e o árbitro precisa se virar para alcançar alguma justiça!

Na atualidade a principal pauta quanto ao papel ético do xadrez trata da questão do uso ilegal de celulares e computadores em competições oficiais.

 
O Grande Mestre Gaioz Nigalidze, da Geórgia, jogando contra o Grande Mestre - Tigran Petrosian, na sexta rodada do Aberto de Dubai em 2015, assombrou o mundo ao ser constatado que em suas repetidas idas ao banheiro, havia um aparelho Iphone escondido entre uma pilha de papel higiênico!

Após constatada a fraude pelos árbitros, considerando diversas evidências levantadas, o Grande Mestre em questão foi eliminado do torneio e instaurou-se um processo para uma possível suspensão dele por até 15 anos.

Ora, este não é um caso isolado, basta que acessemos o Google para verificarmos pelo menos uma dezena destas situações entre o xadrez profissional de alto nível.

Se o xadrez também é chamado de jogo da inteligência, da criatividade, trapacear, plagiar, ocultar, atacar o adversário, isso não contraria a própria essência do jogo?

Mas temos uma contradição aqui manifesta:

Que é o xadrez? É o jogo da guerra?

Entre tantas possíveis definições, uma perspectiva pouco defendida e divulgada é a do xadrez como instrumento ético.

Não há espaço e sentido para que defendamos o jogo como uma imagem da guerra.

A guerra, em sua acepção, ela é a ausência de diálogo em vista de conflitos de interesses. Quando não há diplomacia, acontece a guerra.

 Já a proposta do xadrez é atuar com adversários e não com inimigos. Em uma guerra não tenho adversários, mas sim inimigos. Preciso matar para não morrer!

As bases filosóficas do xadrez devem pautar-se em seu âmbito de instrumento do aperfeiçoamento pessoal para a cidadania. Enquanto instrumento, o xadrez é uma habilidade social, um meio para o crescimento pessoal, social e intelectual. Dissociar a ética da prática enxadrística é retirar da essência do xadrez seu papel social.


Em um mundo de bilhares de pessoas, poucos são os mestres, mas temos milhares de enxadristas.

A prática esportiva salutar é aquela que promove o aperfeiçoamento humano, e isso é defendido e muito bem exposto pelo COI (Comitê Olímpico Internacional - https://www.olympic.org/), e desde os gregos antigos, quando iniciavam as olimpíadas, as guerras eram pausadas em virtude do caráter majestoso e ético das competições.

O xadrez como instrumento de formação humana remete ao seu papel social e psicológico como primários, em detrimento dos resultados que seriam secundários.

Porém, poderíamos observar: fácil dizer, mas sem resultados, o fracasso faz do praticante um sujeito oculto do mundo esportivo!


A dizer a verdade: ninguém gosta de fracassados éticos, as pessoas amam os vencedores, ainda que sem caráter!

 
Entre o ético e a excelência, entre o ideal e o real, o jogo de xadrez manifesta nossa contradição humana em preferirmos o agradável ao justo, o luxo à simplicidade.

 
Esta dualidade própria ao xadrez não é resolvida facilmente, até porque a noção de sujeito ético parece cada vez mais fora de moda no mundo contemporâneo.

De todo modo, cafona ou não, o que você prefere?

Ser ético?

Ou prefere amassar, humilhar, ridicularizar, atacar psicologicamente seu adversário?

Como na ética a resposta não está dada, no xadrez também não! Cada um faz a sua...



Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette

Todas as imagens usadas neste artigo são públicas e disponíveis a serem baixadas no site: www.pixabay.com
O vídeo é de nossa autoria e não deve ser comercializado ou utilizado para fins que não sejam pedagógicos.
 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Brigamos pelos PALHAÇOS, mas o circo continua - A política como espetáculo


Se somos seres sociais, cadê o senso de responsabilidade?


As lógicas colaborativas pouco aparecem.

Em política, no modelo clássico brasileiro dos partidos, vemos estruturas hierárquicas, líderes a serem defendidos e bajulados, interesses corporativos, sejam eles empresariais, religiosos, etc.

Lugar de empresário é nas empresas, produzindo e gerando riquezas. Assim como o lugar de pastores e de padres é nas igrejas, e não no congresso. Mas os interesses se sobrepõem ao ideal, e o filosófico parece abstrato diante do que acontece na efetividade da vida social.

Em crise, o discurso preconceituoso ganha popularidade, e a insatisfação social e econômica é transformada em ódio contra raça, opção sexual, etc.
Erro categorial! Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!

Falta de dinheiro, crise política, opção religiosa, tudo isso não justifica a ninguém ser preconceituoso em um estado laico, como o nosso deveria ser.

Mas os oportunistas estão a solta, inclusive há quem se diga pré-candidato presidencial defendendo teses xenofóbicas. E por incrível que pareça, pessoas aderem a tais posições, não percebendo a banalidade e o perigo dessas adesões.

Ocorre que a ideia de fracasso tomou conta do país inteiro, e o hiato da corrupção atual mostrou que para além de direita e esquerda, o buraco é mais embaixo.

Esta ideia de fracasso é utilizada pelos oportunistas e faz ideologia. Muitos acreditam que o nosso país perdeu!!
E não foi apenas de 7 a 1 da Alemanha!

Isso é um absurdo, pois o Brasil é grande e seu povo é incrível.

Vejam nossas escolas que, sem recursos, até mesmo sem merenda (até porque alguns "espertos" costumam desviá-las...), mas nestas situações degradantes professores, pais e alunos, muitos se esforçam e lutam para uma educação de qualidade.

 

Embora os noticiários e os programas que mostram crânios rachados e bandidos pobres digam que nosso país é um lugar de vagabundos, isso é mentira, pois há muita gente boa e trabalhadora em nosso país. Conheço e convivo com milhares delas...

Também temos em quantidade pessoas vagabundas e sem caráter, o que é normal, pois em todo lugar é assim...

Mas nossa política, é verdade, essa sim está maculada. 

Ocorre que esquerda, direita e centro, brigando entre si para tomar o poder, todos se mostraram, nos últimos tempos, errados em maior ou menor grau:
 

Estamos brigando pelos palhaços, mas o circo continua sempre sob a mesma lógica!

 

O momento espetáculo, com nossa mídia fazendo da política um objeto de entretenimento, governantes corruptos e aparentemente desprovidos de mínimo senso ético, tudo isso faz que as pessoas deixem de acreditar nos governos.

A crise de governabilidade mostra claramente esse aspecto de luta pelo poder.

O bem comum, o "demos" (povo), não é medida comum desta atual luta política. 

O ideal grego de um homem autárquico, de um ser humano autônomo e que exerce sua cidadania plenamente na vida democrática, isso pouco tem haver com o que hoje observamos em nossa política.

A tomada do poder, a busca por exercer a atividade política por meio de grupos e seus respectivos interesses, isso mostra que a noção de autoridade política, tal qual nossa democracia representativa defende, ela está desagregada e desacreditada.

A ideia de líderes é falha, embora nós brasileiros sejamos fãs dos supostos heróis. O coletivo, a participação popular, os conselhos de base, isso nós não vemos nos veículos de comunicação.

Até alguns juízes, agora, se fingem de justiceiros, e atropelam todas as instâncias e divisões do poder, se lançando como figuras midiáticas. Isso é totalmente contrário ao papel de juiz, o qual deve aparecer pouco e julgar bem, pois a lei deveria falar por si e não através de marketing pessoal.

Na política como espetáculo, a inteligência coletiva, a problemática de exprimir o bem comum, e a luta por democratização real das instituições, nada disso está em pauta.

Na verdade não é desinteresse das pessoas, ou falta de intenção ou de inteligência. Há uma mecânica da vida social que retifica o sistema posto e nós temos dificuldade de entrar em contraste com o que é dado por essa plataforma sofisticada.

 Todos queremos um Brasil melhor, mas a luta entre os segmentos políticos, os conflitos de interesses, tudo isso lapida o nosso real para que sejamos complacentes com o que está acontecendo.

Ocorre que nós somos seres que vivemos sob a lógica das relações de troca. Que isso significa?

Na vida política, apoiamos A ou B, desde que sejamos favorecidos nisso ou naquilo. O famoso "dar para receber". Mas este apoio escuso é fundamental para a deturpação da lógica da política em vista da aniquilação do bem comum.

Nossos interesses se sobrepõe ao senso de justiça, somos interesseiros. Neste aspecto, o realismo político de Maquiavel nos esclarece que somos seres intencionais.

Essa intencionalidade de nossas ações justamente tende à satisfações orientadas, na maioria das vezes, para a ganância e o luxo.

Para derrubar o circo político e transformá-lo em um instrumento de uso coletivo, mais que a luta entre os segmentos, há que pensar seriamente este âmbito de nossa natureza que fica sob o amparo dos interesses.

É necessário, pois, pensar sobre isso...

Mas enquanto pensamos... na realidade do Brasil, em nosso legislativo, comitês de ética de câmaras desacreditadas dão as cartas ...em vista de um executivo frágil, aliado ao judiciário que possui suas próprias contradições cada vez mais evidentes, tudo isso leva as pessoas, sobretudo a classe média, a entrar em parafuso e banalizar nossa nação.

Este quadro político não é definitivo!

Não devemos aceitar passivamente da mídia este quadro de horror como irreversível, pois para além dos palhaços que norteiam nossa vida social, há muita gente trabalhadora e que fazem a diferença.




Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette

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segunda-feira, 13 de junho de 2016

Uma Filosofia para a vida - Uma breve introdução ao pensamento de Michel de Montaigne


MICHEL DE MONTAIGNE

 

Contra a falta de sentido e o erro da razão, a verdadeira Filosofia do "eu" se faz pela fé

 Entre o sim e o não, para Montaigne temos a vida!

 


 
Montaigne é um filósofo renascentista. Sua filosofia se confunde com uma vida agitada e cheia de desafios. O filósofo, antes de tudo, procurou escrever para si mesmo.

 Sua obra prima, os "Ensaios", são na verdade um diário em que ele anotava tudo o que lhe agradava. A partir das citações e comentários sobre outros filósofos, Montaigne foi pouco a pouco lapidando suas próprias reflexões e dando corpo a isto que chamamos de pensamento montaigniano.

 Costuma-se dizer em Filosofia que nós não pedimos para nascer, mas somos postos no mundo.

 E a vida humana acontece e estamos aqui. Temos nome, a maioria de nós tem família. Assim, somos pessoas, temos nomes e por estes nomes tratamos outros como pessoas, assim como nomeamos animais e coisas diversas, de forma a vivermos nos relacionando com tudo isso o que habita o nosso mundo circundante.

 

Eis o que bem explica o autor no prefácio dos Ensaios:

Eis aqui, leitor, um livro de boa-fé. Adverte-o ele de início que só o escrevi para mim mesmo, e alguns íntimos, sem me preocupar com o interesse que poderia ter para ti, nem pensar na posteridade. […] Se houvesse almejado os favores do mundo, ter-me-ia enfeitado e me apresentaria sob uma forma mais cuidada, de modo a produzir melhor efeito. Prefiro, porém, que me vejam na minha simplicidade natural, sem artifício de nenhuma espécie, porquanto é a mim mesmo que pinto. (MONTAIGNE, 1972, p. 12 – Prefácio)

 

            Montaigne representa na Filosofia o convite ao filosofar. Perguntar, questionar, provocar, ironizar, desdizer, refazer, contradizer, etc., são modos do filosofar, e fazer filosofia supõe essa abertura para pensar temas e questões de uma forma diferenciada. Isto porquê o filósofo francês questiona temas fundamentais da existência humana. Assim, é comum perguntarmos: Qual o sentido da vida? Por que precisamos seguir as convenções e normas sociais? etc.

             

            Para o filósofo devemos: não inventar um homem ideal, mas descrever o homem real, com seus vícios e virtudes. O problema é justamente saber como realizar essa descrição, pois, se tudo é movimento, abarcar o ser humano nesta situação de passagem é difícil, na medida em que a cada momento vivido permite o emergir de uma nova imagem. Notemos que o legado heraclitiano do devir como fundamento é seguido nesta abordagem do humano. Eis o que afirma o filósofo em relação ao tema:

[…] Não posso fixar o objeto que quero representar: move-se e tutubeia como sob efeito de uma embriaguez natural. Pinto-o como aparece em um dado instante, apreendo-o em suas transformações sucessivas, não de sete em sete anos, como diz o povo que mudam as coisas, mas dia por dia, minuto por minuto. (MONTAIGNE, 1972, p. 371 – Livro III, Capítulo II)

 

           Neste contexto, entre tantos temas abordados pelo filósofo, em sua interessante obra Ensaios, nela notamos um tema-chave que cerceia por todas essas indagações. Essa chave interpretativa é a busca incessante por decifrar uma questão já abordada filosoficamente por Sócrates:

Que sei eu?

            Quando o filósofo grego dizia ironicamente que “só sabia que nada sabia!”, esta forma de abordar o saber levava necessariamente a perguntar sobre o que nós seres humanos sabemos, se é que sabemos alguma coisa. A filosofia de Montaigne segue as pegadas dessa forma dialógica de discussão, de abertura ao questionamento de nossas pretensas verdades. O que sabemos? Como podemos ter certeza sobre algo? Que é essa coisa que nós mesmos somos? Como podemos ter uma identidade e ao mesmo tempo estarmos mudando continuamente o que somos?

            A consciência de nossa própria identidade é um tema fundamental para a filosofia moderna, e quando falamos sobre um “eu” (ego), estamos nos remetendo a esta história da noção de subjetividade que está presente em Montaigne e em Descartes. Diante de uma forma ensaística de escrita em primeira pessoal, tal qual algo que propõe um experimento de si mesmo, para Montaigne sempre precisamos reordenar e reinterpretar o quebra-cabeças de nossa própria identidade. Mas este quebra-cabeças não é linear, pois não há objeto fixo para representar, de forma que cada peça tem sua própria forma e muitas vezes não se encaixa bem nas outras. Podemos dizer, neste sentido, que a história humana é difusa, e neste titubeio o ser humano é complexo e controverso. Podemos notar facilmente que ora queremos uma coisa e logo em seguida queremos o contrário! Não é sem razão que Raul Seixas em sua Música “Metamorfose Ambulante” enfatiza esse caráter difuso, complexo e contraditório da identidade humana.

           
           Na filosofia montaigniana o combate ao dogmatismo se desdobra tal qual esse enfrentamento político e cultural. Contra o dogmatismo Montaigne se lança a conhecer e discutir profundamente as escolas e temas filosóficos que mais se destacavam. Entre outros, ateísmo, agnosticismo, ceticismo, epicurismo, estoicismo e cinismo são confrontados, relacionados, criticados e problematizados. Notemos, pois, que a questão da unidade do pensamento de Montaigne é um tema controverso. Ao que tudo indica, dificilmente poderíamos interpretar o filósofo de forma sistêmica tal qual fazemos com Descartes e Hegel, por exemplo.

            Esculpir a si mesmo e pensar por si mesmo são temas clássicos, e embora eles tivessem sido muito bem examinados por Nietzsche, é evidente que já eram defendidos no renascimento por Montaigne. A tolerância aparece, pois, para Montaigne, como proposta de suportar a laicização. Assim, devo aceitar a escolha do dogma moral e religioso de outrem que não é o mesmo que o meu, e preciso me manter tolerante e paciente diante daquilo que me é estranho. Suportar o outro é uma das importantes lições de Montaigne, inclusive em relação à heresia, pois, embora o fideísmo de Montaigne combatesse filosoficamente o ateu, seu pensamento se posta mais para o lado da laicidade que para extremismos religiosos.

            Esta arte de conhecer a si mesmo, este exercício de julgamento da experiência pessoal, ela é uma defesa do singular, e por esta a crítica irônica às convenções sociais, nas figuras das máscaras, essa posição justifica a tradição de intitular Montaigne como o “Sócrates Francês”. A postura do filósofo expressa um ideal de sinceridade, e esse exame de si mesmo exige que aceitemos e descrevamos nossos vícios e perversões. Se o exterior nem sempre é adequado, a crítica ao exterior é uma importante forma de preservar uma singularidade que não deve nos escapar, que é nossa.

Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette

Se quer ler mais sobre o assunto - confira o artigo abaixo:


 

Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette

 

domingo, 12 de junho de 2016

Quem joga xadrez não pensa

 
O Xadrez não é o jogo da estratégia
 
 
 
 
Nosso pensar funciona como uma armário. Vamos colocando coisas dentro e as organizando nas gavetas que estabelecemos arbitrariamente como certas. É difícil mudar as gavetas! Somos preguiçosos, e nossa mente, geralmente, só altera o que está dentro delas.

Somos chatos e repetitivos - Nossa natureza é assim
 
 
 
Tudo padronizamos, e precisamos criar lógica em todas as nossas ações. Vejam hoje, por exemplo, dia dos namorados! Todo mundo postando coisas parecidas nas redes sociais, se presenteando e dizendo coisas belas. Ir ao trabalho, cuidar do corpo, limpar o corpo e comer. E isso tudo é tão repetitivo e igual, e tudo tão maluco. As mulheres, por exemplo, são tão insanas que gastam fortunas arrancando os pelos, ou pintando partes do corpo, como cabelos e unhas.
 
E quando perdemos a lógica? Tudo cai por terra. Perder um parente querido ou ser abandonado pela pessoa amada, tudo isso nos arrasa. Muitos não conseguem sair da cama, de tanta tristeza.
 
Observem que a depressão é uma doença comum e a cada dia ganha mais e mais adeptos. Ora, nós lutamos contra a chatice da vida. Entre tantas coisas, é por isso que fazemos as loucuras e nos embriagamos. O dionisíaco, a embriaguez tem papel fundamental para que sejamos capazes de suportar a vida, pois a vida tem que ser alimentada. Se não cultivamos a vida, ela morre e nós também.
 
As piores idiotices que fazemos são aquelas em que sabemos o que devemos fazer, queremos fazer a coisa certa, mas ai aquele um por cento "fode tudo" e logo fazemos uma bela de uma cagada.
 
Entre o saber e o não saber, o xadrez não é o jogo da estratégia, porque há estratégia em tudo, inclusive quando fazemos besteiras.
 
A questão primordial que norteia a estratégia enxadrística é a criatividade em não deixar nossos padrões de pensamento dominar nosso jogo.
 
Por quê as crianças jogam tão bem o xadrez?
 
 
 
Por que elas estão, geralmente, com a mente menos padronizada, elas não se fecham nos esquemas como nós adultos. A fantasia, assistir desenho animado, brincar e acreditar em papai noel. Vejam, as crianças são menos mecânicas que nós adultos.
 
A criatividade em não jogar o óbvio, em arriscar, em adentrar o campo escorregadio do desconhecido, a criatividade no xadrez é peça mestra para o sucesso no jogo.
 
 
Estudamos os esquemas, fazemos plano de trabalho e organizamos o xadrez cientificamente. Mas tudo isso deve complementar a criatividade, essa última é o ponto nevrálgico do sucesso.
 
Basta lembrar de Kasparov e Fischer. A obsessão destes dois pela criatividade no jogo de xadrez chama atenção, pois ambos uniam o rigor do científico com uma explosão de criatividade. Magnus Carlsen, entre outros da atualidade, também demonstram claramente isso.
 
Pela minha experiência como praticante do jogo, embora não tenha dados de uma pesquisa empírica, mas imagino que, podemos chutar algo por volta de 80 por cento dos nossos lances são feitos de forma automática.
Que isso significa?
 
Ora, jogamos xadrez sem pensar!
 
Ou melhor, jogamos xadrez pensando de forma automática!
 
 
É quando desconfiamos do óbvio, quando não seguimos automaticamente nossa primeira intuição de como prosseguir, é pela capacidade em pensar o diferente, é assim que fazemos da estratégia a aliada da criatividade. Só a estratégia, por ela mesma, é frágil e incompleta.
 
Enquanto que o segredo do sucesso no mundo dos negócios é padronizar, no xadrez ocorre o contrário, nele é necessário rasgar com o óbvio, brincar com as coisas, fantasiar e arriscar.
 
O mundo onírico, o dadaísmo, a loucura. A busca pelo sentido diante do aparente não sentido, estes são elementos marcantes de uma luta a ser feita contra o domínio absoluto dos padrões.
 
 
 
 
Aparência não é essência, dizem os filósofos!
 
Alcançar a maestria no xadrez é ter condições de começar a entender o xadrez de um modo não trivial.
 
Pensar, ou usar o pensar melhor no jogo de xadrez, isso depende que aceitemos a interação entre o trivial e o espetacular.
 
Como você é jogando xadrez? Você padroniza seu jogo? Sempre repete aberturas e esquemas de jogo? Você abre espaço para pensar o não óbvio? Porquê seu jogo não melhora? O que você pode fazer para se concentrar melhor?
 
Estas são questões que todo enxadrista deve fazer para progredir. Mais uma vez, é difícil falar em xadrez sem que citemos Sócrates!
 
Sempre é, como não: Conhecer a si mesmo é fundamental. 
 
 
 
Autor: Edgard Vinícius Cacho Zanette